O DIA EM QUE O MORRO DESCER E NÃO FOR CARNAVAL



O dia em que o morro descer e não for carnaval
ninguém vai ficar pra assistir o desfile final
na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu
vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil
(é a guerra civil)

No dia em que o morro descer e não for carnaval
não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral
e cada uma ala da escola será uma quadrilha
a evolução já vai ser de guerrilha
e a alegoria um tremendo arsenal
o tema do enredo vai ser a cidade partida
no dia em que o couro comer na avenida
se o morro descer e não for carnaval

O povo virá de cortiço, alagado e favela
mostrando a miséria sobre a passarela
sem a fantasia que sai no jornal
vai ser uma única escola, uma só bateria
quem vai ser jurado? Ninguém gostaria
que desfile assim não vai ter nada igual

Não tem órgão oficial, nem governo, nem liga
nem autoridade que compre essa briga
ninguém sabe a força desse pessoal
melhor é o poder devolver a esse povo a alegria
se não todo mundo vai sambar no dia
em que o morro descer e não for carnaval.


Paulo César Pinheiro



DOWNLOAD: FIUME PIRATEIA VOLUME 3 - MR. CATRA
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Participações de Menor do Chapa, G3, Duda do Borel, Sonar Calibrado, Cidinho, Doca, Rafa, Galo, Barriga, G, Edgar, Valério Cara de Porco & Monstro Sabará, dentre outros.
Funk Carioca, Miami Bass, RAP, Ragga, Electrobass, Soul, Reggae: MPB.
Quase todas as músicas gravadas ao vivo.
Tem que respeitar.

O TRABALHADOR E A MÁQUINA




"Maldita máquina!" pragueja o trabalhador, suando gotas grossas, cansado e desanimado. "Maldita máquina, que me obrigas a seguir o teu ritmo infernal, como se eu também fosse feito de aço e movido por um motor! Odeio-te, instrumento de pesadelo, pois fazendo o trabalho de dez, vinte ou trinta trabalhadores, tiras-me o pão da boca - e condenas-me, assim como à minha mulher e meus filhos, a passar fome".

A máquina geme sob os golpes do motor, parecendo assim partilhar a fadiga do seu companheiro de sangue e músculos. Todas as peças que a compõem estão em movimento, e nunca param. Algumas deslizam, outras sobressaltam. Estas oscilam, estas rodopiam, gotejando óleo negro, ganindo, trepidando, cansando a vista do escravo de carne e osso que tem de seguir cuidadosamente todos os movimentos delas e resistir ao embrutecimento que provoquem, para não deixar prender um dedo numa dessas engrenagens de aço, ou perder uma mão, um braço, ou a vida...

"Máquinas infernais!" Deveriam desaparecer todas, sequazes do diabo! Belo trabalho que fazem! Em um dia, sem outra despesa que alguns baldes de carvão para alimentar o motor, despacham cada uma mais trabalho que um homem em um mês, de tal maneira que um trabalhador, que poderia ter trabalho para trinta dias, vê-lo reduzido a um só por vossa causa... nós a morrer deixa-te indiferente! Sem ti, vinte famílias de proletários teriam o pão quotidiano assegurado."

As mil e umas peças da máquina estão em ação. Giram, deslizam em todos os sentidos, juntam-se e afastam-se, suam gorduras repugnantes, trepidam e ganem até a vertigem... a lúgubre máquina não deixa um instante de descanso. Respira ruidosamente como se fosse viva. Parece esperar qualquer momento de distração do escravo humano para morder-lhe um dedo, arrancar-lhe um braço - ou a vida...

Através de um respiradouro, penetra uma pálida luz, carceral e sinistra. O próprio sol recusa-se a iluminar este antro de miséria, de angústia e de fadiga, onde se sacrificam laboriosas existências para o benefício de vidas estéreis. Ruídos de passos vêm do exterior - é o rebanho em marcha! Miasmas espreitam em cada canto da oficina. O trabalhador tosse... tosse! A máquina geme... geme!

"Fazem sete horas que estou ao teu lado e ainda tenho que agüentar três. Tenho vertigens, mas devo resistir. A cabeça pesa-me, mas cuidado com o menor momento de desatenção! Tenho de seguir todos os teus movimentos se não quero que os teus dentes de aço me mordam e que os teus dedos de ferro me encerrem... Mais três longas horas! As minhas orelhas zumbem, uma sede terrível devora-me, tenho febre, a minha cabeça vai rebentar."

Sons felizes chegam de fora: são crianças que passam, travessas. Os risos delas, graciosos e inocentes, afastam por um instante a penumbra em volta, gera uma sensação de frescura tal como o canto de um pássaro num momento de abatimento. A emoção apodera-se do operário. Os próprios filhos dele também gorjeiam assim! É assim que riem! E, sempre a observar o movimento dos mecanismos, começa a pensar. O espírito vai ter com o fruto dos seus amores, que espera por ele em casa. Estremece com a idéia de as crianças dele terem também de vir estourar-se perante uma máquina na penumbra de uma oficina onde pululam os micróbios.

"Maldita máquina! Odeio-te!"

A máquina começa a trepidar com mais vigor, já não geme mais. De todos os seus tendões de ferro, de todas as suas vértebras de aço, dos dentes duros de suas engrenagens, das suas centenas de peças infatigáveis, sai um som rouco cheio de raiva que, traduzido em linguagem humana, significa:

- Cala-te miserável! Pára de queixar-te, covarde! Eu não passo de uma máquina, movida por um motor, mas tu, tu tens um cérebro e não te revoltas, pobre diabo! Pára de lamentar-te sem fim, imbecil! É a tua covardia que é causa da tua desgraça, não eu. Apodera-te de mim, arranca-me das garras desse vampiro que te chupa o sangue, e trabalha para ti e os teus, cretino! Em si, as máquinas são uma bênção. Poupamos esforço ao homem, mas vocês trabalhadores são tão estúpidos que nos deixam nas mãos dos vossos carrascos, embora vocês próprios nos tenham construído. Como conceber maior estupidez? Cala-te e não pies nem uma palavra mais! Se não tens a coragem de romper as tuas correntes, então não te queixes! Vamos, são horas de sair. Foge daqui e pensa!

Com as palavras salutares da máquina, associadas ao ar fresco da rua, surge a consciência à mente do trabalhador. Sente um mundo desmoronar-se no seu espírito: o mundo dos preconceitos, dos interditos e do respeito da ordem estabelecida, das leis e das tradições.



Flores Magón
1916



DOWNLOAD: KENNY BURRELL WITH COLEMAN HAWKINS - BLUESY BURRELL - 1973 - 320 Kbps
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CONTRA O ROUBO DA VIDA - CONTRA O TRABALHO




Boa parte de nossas vidas, de nossas tardes, de nossas manhãs e noites são roubadas pelo trabalho. E na maioria dos casos trabalhamos em lugares que não gostamos, fazendo coisas que não gostamos e tudo isso simplesmente para comprar coisas que na realidade não precisamos.
Bob Black em "A Abolição do Trabalho" afirma que "estamos tão próximos do mundo do trabalho que não conseguimos ver o que ele faz conosco".
O trabalho nos empobrece, arruína nossos espíritos, nos enfraquece como indivíduos capazes de desenvolver as mais diversas habilidades e de enfrentar e experimentar as mais diversas situações.
Ao contrário do que a mídia, o Estado, os partidos e sindicatos, a esquerda e a direita, o clero e a escola afirmam, o trabalho não é sinônimo de atividade humana, trabalho é sinônimo de alienação humana. O trabalho é o roubo de nossa energia criativa para fins que não nos interessam e que geralmente são prejudiciais a nós mesmos e ao planeta. Vamos encarar a realidade, ninguém trabalha porque quer, somos induzidos ao trabalho porque o Estado e o capital trabalham juntos para garantir sua sobrevivência às custas da humanidade e da Terra, e para isso bombardeiam nossas mentes 24 horas por dia com a mentira de que existe somente esta forma de viver (trabalhar e pagar contas), de que não podemos viver de outra maneira. Fora disso é ilusão, loucura!
E quando acreditamos nessa mentira, acabamos com as nossas vidas trabalhando em lugares que não gostamos, fazendo coisas que na realidade não nos interessam.
Desvencilharmo-nos do universo do trabalho através da construção da autonomia é um projeto vital para retomarmos o controle e o significado de nossas vidas.


John Zerzan



DOWNLOAD: JAY-JAY JOHANSON - SELF-PORTRAIT - 2008

DITADURA DO RELÓGIO


Não há nada que diferencie tanto a sociedade ocidental de nossos dias das sociedades mais antigas da Europa e do Oriente do que o conceito de tempo. Tanto para os antigos gregos e chineses quanto para os nômades árabes ou para o peão mexicano de hoje, o tempo é representado pelos processos cíclicos da natureza, pela sucessão de dias e noites, pela passagem das estações. Os nômades e os fazendeiros costumavam medir - e ainda hoje o fazem - seu dia do amanhecer até o crepúsculo e os anos em termos de tempo de plantar e de colher, das folhas que caem e do gelo derretendo nos lagos e rios. O homem do campo trabalhava em harmonia com os elementos, como um artesão, durante tanto tempo quanto julgasse necessário. O tempo era visto como um processo natural de mudança e os homens não se preocupavam em medi-lo com exatidão. Por essa razão, civilizações que eram altamente desenvolvidas sob outros aspectos dispunham de meios bastante primitivos para medir o tempo: a ampulheta cheia que escorria, o relógio de sol inútil num dia sombrio, a vela ou lâmpada para onde o resto de óleo ou cera que permanecia sem queimar indicava as horas. Todos esses dispositivos forneciam medidas aproximadas de tempo e tornavam-se muitas vezes falhos pelas condições do clima ou pela inabilidade daqueles que os manipulavam. Em nenhum lugar do mundo antigo ou da Idade Média havia mais do que uma pequeníssima minoria de homens que se preocupassem realmente em medir o tempo em termos de exatidão matemática.

O homem ocidental civilizado, entretanto, vive num mundo que gira de acordo com os símbolos mecânicos e matemáticos das horas marcadas pelo relógio. É ele que vai determinar seus movimentos e dificultar suas ações. O relógio transformou o tempo, transformando-o de um processo natural em uma mercadoria que pode ser comprada, vendida e medida como um sabonete ou um punhado de passas de uvas. E, pelo simples fato de que, se não houvesse um meio para marcar as horas com exatidão, o capitalismo industrial nunca poderia ter se desenvolvido, nem teria continuado a explorar os trabalhadores, o relógio representa um elemento de ditadura mecânica na vida do homem moderno, mais poderoso do que qualquer outro explorador isolado ou do que qualquer outra máquina.

(...) A princípio, esta nova atitude em relação ao tempo, este novo ritmo imposto à vida foi ordenado pelos patrões, senhores do relógio, e os pobres o recebiam a contragosto. E o escravo da fábrica reagia, nas horas de folga, vivendo na caótica irregularidade que caracterizava os cortiços encharcados de gim dos bairros pobres no início da era industrial do século XIX.

Os homens se refugiavam no mundo sem hora marcada da bebida ou do culto metodista. Mas aos poucos, a idéia de regularidade espalhou-se, chegando aos trabalhadores. A religião e a moral do séc. XIX desempenharam seu papel, ajudando a proclamar que "perder tempo" era um pecado. A introdução dos relógios, fabricados em massa a partir de 1850, difundiu a preocupação com o tempo entre aqueles que antes se haviam limitado a reagir ao estímulo do despertador ou à sirene da fábrica. Na igreja e na escola, nos escritórios e nas fábricas, a pontualidade passou a ser considerada como a maior das virtudes.

E desta dependência servil ao tempo marcado nos relógios, que se espalhou insidiosamente por todas as classes sociais no séc. XIX, surgiu a arregimentação desmoralizante que ainda hoje caracteriza a rotina das fábricas.

O homem que não conseguir ajustar-se deve enfrentar a desaprovação da sociedade e a ruína econômica - a menos que abandone tudo, passando a ser um dissidente para o qual o tempo deixa de ser importante. Refeições feitas às pressas, a disputa de todas as manhãs e de todas as tardes por um lugar nos trens e nos ônibus, a tensão de trabalhar obedecendo horários, tudo isso contribui, pelos distúrbios digestivos e nervosos que provoca, para arruinar a saúde e encurtar a vida dos homens.

Nem se poderia afirmar que a imposição financeira da regularidade de horários tenha contribuído a longo prazo para o aumento da eficiência. Na verdade, a qualidade do produto parece ter até diminuído, pois o empregador que vê o tempo como uma mercadoria pela qual tem de pagar obriga o operário a trabalhar numa velocidade tal que a produção forçosamente será de qualidade inferior. O critério passa a ser de quantidade e não de qualidade e já não há mais o prazer do trabalho pelo trabalho. O trabalhador transforma-se, por sua vez, num especialista em "olhar o relógio", preocupado apenas em saber quando poderá escapar para gozar suas escassas e monótonas formas de lazer que a sociedade industrial lhe proporciona; onde ele, para "matar o tempo", programará tantas atividades mecânicas com tempo marcado, como ir ao cinema, ouvir rádio e ler jornais, quanto permitir o seu salário e o seu cansaço. Só quando se dispõe a viver em harmonia com sua fé ou com sua inteligência é que o homem sem dinheiro consegue deixar de ser um escravo do relógio.


George Woodcock

DOWNLOAD: KRAFTWERK - MINIMUM MAXIMUM - 2005 - DUPLO

SURPLUS - TERRORIZED INTO BEING CONSUMERS

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DOWNLOAD FILM TORRENT: SURPLUS - TERRORIZED INTO BEING CONSUMERS -
- ERIK GANDINI & JOHAN SODËRBERG - SUÉCIA - 52 min. - 2003 - DVD - 3.45 Gb -
- LEGENDAS EM PORTUGUÊS E MAIS 5 IDIOMAS -

VISTA CANSADA






Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.


Otto Lara Resende




DOWNLOAD: BOBBY KALPHAT & PHIL PRATT - ZION HILL DUB - 1977 - VBR > 256 Kbps
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EXCESSO DE INFORMAÇÃO


1. Perda de produtividade
- a falta de foco e o excesso de opções nos faz pular de um assunto ou detalhe a outro, distraindo-nos de nossas metas e propósitos.

2. Mente inquieta
- este ruído constante de mídia acaba gerando um zumbido constante que obstrui a concentração e a paz interior.

3. Perda de Tempo
- todo o tempo desperdiçado recebendo, deglutindo e repetindo informação inútil é descontado de nossa cota diária de trabalho, diversão, envolvimento e felicidade.

4. Desconexão - quanto mais somos expostos e envolvidos pelo excesso de informação, mais se enfraquece nosso elo interior com nossos valores, sentimentos e metas.

5. Stress e Ansiedade - o zumbido da informação inútil vicia, e cria a ilusão de temos milhares de pequenas coisas a fazer, notícias para ler, tarefas a cumprir. Após meses nessa rotina, a impressão que se tem é a de que se está sempre ocupado, atrasado e devendo.

Think Simple Now



DOWNLOAD: THE FOLK IMPLOSION - TAKE A LOOK INSIDE - 1994

BRASILEIRO CEM-MILHÕES



Telefonei para a maternidade indagando se havia nascido o bebê nº 100.000.000, e não souberam informar-me:
– De zero hora até este momento nasceram oito, mas nenhum foi etiquetado com esse número.
É uma falha do nosso registro civil: as crianças não recebem número ao nascer. Dão-lhes apenas um nome, às vezes surrealista, que as acompanhará por toda vida como pesadelo, quando a numeração pura e simples viria garantir identidade insofismável, poupando ainda o vexame de carregar certos antropônimos. Centenas de milhares nascem João ou José, mas o homem ou a mulher 25.786.439 seria uma única pessoa viva, muito, mas fácil de cadastrar no fichário do Imposto de Renda e nos 10 mil outros fichários com que é policiada a nossa existência.
Passei por baixo do viaduto, onde costumam nascer filhos do vento, e reinava uma paz de latas enferrujadas e grama sem problemas. Ninguém nascera ali depois da meia-noite. O dia 21 de agosto, marcado para advento do brasileiro cem-milhões, transcorria sem que sinal algum, na terra ou no ar, registrasse o acontecimento.
Costumo acreditar nos bancos, principalmente nos oficiais, e se o Banco Nacional de Habitação, através da Serfhau, garantiu que nessa segunda-feira o Brasil atingiria a cifra redonda de 100 milhões de habitantes, é porque uma parturiente adrede orientada estaria de plantão para perfazer esse número.
Verdade seja que o IBGE, pelo Centro Brasileiro de Estudos Demográficos, julgou prematura a declaração, e só para o trimestre de outubro/dezembro nos promete o brasileiro em questão. Não ponho em dúvida sua autoridade técnica, mas um banco é um banco, ainda mais se agência governamental, e a esta hora deve ter recolhido nosso centésimo milionésimo compatrício em berço especial da casa própria, botando-lhe à cabeceira um cofre de caderneta de poupança.
É que me custa admitir o nascimento desse garoto, ou garota, sem o amparo de nossas leis sociais, condenado a ser menos que número - uma dessas crianças mendicantes, que não conhecerão as almofadas da felicidade. Não queria que a televisão lhe desse um carnê e uma viagem à Grécia, nem era preciso que Manchete lhe dedicasse 10 páginas coloridas sob o patrocínio do melhor leite em pó. Mas gostaria que viesse ao mundo com um mínimo de garantia contra as compulsões da miséria e da injustiça, e de algum modo representasse situação idêntica de milhões de outras crianças que recebessem - estou pedindo muito? – não somente o dom da vida, mas oportunidades de vivê-la.
Seria vaidade irrisória proclamar-se ele o 100.000.000º brasileiro, membro eufórico da geração dos 100 milhões, e saber-se apenas mais um marginalizado, que só por artifício de média ganha sua fatia no bolo do Produto Nacional Bruto.
Não desejo herói de monumento nem mártir anônimo. Prefiro vê-lo como um ser capaz de fazer alguma coisa de normal numa sociedade razoavelmente suportável, em que a vida não seja obrigação estúpida, sem pausa para fruir a graça das coisas naturais e o que lhes acrescentou a imaginação humana.
Olho para esse brasileiro cem-milhões, nascido ontem ou por nascer daqui a algumas semanas, como se ele fosse o meu neto... bisneto, talvez. Pois quando me dei conta de mim, isso aí era um país de 20 milhões de pessoas, diluídas num território quase só mistério, que aos poucos se foi desbravando, mantendo ainda bolsões de sombra. Vi crescer a terra e lutarem os homens, entre desajustes e sofrimentos.
Os maiorais que dirigiam o processo lá se foram todos. Vieram outros e outros, e encontro nessa geração o novo rosto da vida, que se interroga. Há muita ingenuidade, também muita coragem, e os problemas se multiplicaram com o crescimento desordenado. Somos mais ricos... e também mais pobres.
Meu querido e desconhecido irmão nº 100.000.000, onde quer que estejas nascendo, fica de olho no futuro, presta atenção nas coisas para que não façam de ti subproduto de consumo, e boa viagem pelo século XXI adentro.


Carlos Drummond de Andrade





DOWNLOAD: JIMMY SMITH & WES MONTGOMERY -
JIMMY & WES THE DYNAMIC DUO - 1966 - 320 Kbps

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SAMPLER





É uma questão de reunir várias técnicas recortadas a fim de responder à onipresença dos transmissores que nos alimentam com seus discursos obsoletos (meios de comunicação em massa, publicidades, etc.). É uma questão de desacorrentar os códigos - não mais o sujeito - tal que uma coisa arrebente, escape: palavras por trás de palavras, obsessões pessoais. Neste outro tipo de palavra, que escapa ao totalitarismo da mídia, mas retém o seu poder, e volta contra seus velhos mestres.


Critical Art Ensenble







DOWNLOAD: DELTRON 3030 - 2000 - 192 Kbps
http://www.mediafire.com/?1tvwx2rcuhx



ÁFRICA


Em meus lábios grossos fermenta

a farinha do sarcasmo que coloniza minha Mãe África
e meus ouvidos não levam ao coração seco
misturada com o sal dos pensamentos
a sintaxe anglo-latina de novas palavras.

Amam-me com a única verdade dos seus evangelhos
a mística das suas missangas e da sua pólvora
a lógica das suas rajadas de metralhadora
e enchem-me de sons que não sinto
das canções das suas terras
que não conheço.

E dão-me
a única permitida grandeza dos seus heróis
a glória dos seus monumentos de pedra
a sedução dos seus pornográficos Rolls-Royce
e a dádiva quotidiana das suas casas de prostituição.

Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos
e na minha boca diluem o abstrato
sabor da carne de hóstias em milionésimas
circunferências hipóteses católicas de pão.

E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo
vendem-me a sua desinfetante bênção
a vergonha de uma certidão de filho de pai incógnito
uma educativa sessão de "strip tease" e meio litro
de vinho tinto com graduação de álcool de branco
exata só para negro
um gramofone de magaíza
um filme de heróis de carabina a vencer traiçoeiros
selvagens armados de penas e flechas
e o ósculo das suas balas e dos seus gases lacrimogêneos
civiliza o mau casto impudor africano.

Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço
em rodelas de latão em vez dos meus autênticos
mutovanas* da chuva e da fecundidade das virgens
do ciúme e da colheita de amendoim novo.
E aprendo que os homens que inventaram
a confortável cadeira elétrica

a técnica de Buchenwald e as bombas V2
acenderam fogos de artifício nas pupilas
de ex-meninos vivos de Varsóvia

criaram Al Capone, Hollywood, Harlem
a seita Klu-Klux-Klan, Cato Mannor e Sharpeville**

e emprenharam o pássaro que fez o choco
sobre os ninhos mornos de Hiroshima e Nagasaki
conheciam o segredo das parábolas de Charlie Chaplin
lêem Platão, Marx, Gandhi, Einstein e Jean-Paul Sartre
e sabem que Garcia Lorca não morreu mas foi assassinado
são os filhos dos santos que descobriram a Inquisição
perverteram de labaredas a cruficifada nudez

da sua Joana D'Arc e agora vêm
arar os meus campos com tratores "made in germany"
mas já não ouvem a sutil voz das árvores
nos ouvidos surdos do espasmo das turbinas
não lêem nos meus livros de nuvens
o sinal das cheias e das secas
e nos seus olhos ofuscados pelos clarões metalúrgicos
extinguiu-se a eloqüente epidérmica beleza de todas
as cores das flores do universo

e já não entendem o gorjeio romântico das aves de casta
instintos de asas em bando nas pistas do éter
infalíveis e simultâneos bicos trespassando sôfregos
a infinita côdea impalpável de um céu que não existe.
E no colo macio das ondas não adivinham os vermelhos
sulcos das quilhas negreiras e não sentem
como eu sinto o prenúncio mágico sob os transatlânticos
da cólera das catanas de ossos nos batuques do mar.
E no coração deles a grandeza do sentimento
é do tamanho cowboy do nimbo dos átomos

desfolhados no duplo rodeio aéreo no Japão.

Mas nos verdes caminhos oníricos do nosso desespero
perdôo-lhes a sua bela civilização à custa do sangue
ouro, marfim, améns
e bíceps do meu povo.

E ao som másculo dos tantãs tribais o eros
do meu grito fecunda o humus dos navios negreiros...
E ergo no equinócio da minha Terra
o moçambicano rubi do nosso mais belo canto xi-ronga
e na insólita brancura dos rins da plena Madrugada
a necessária carícia dos meus dedos selvagens
é a tácita harmonia de azagaias no cio das raças
belas como altivos falos de ouro
eretos no vento nervoso da noite africana.


* Amuletos

** Cato Mannor e Sharpeville: Nomes de lugares onde ocorreram repressões policiais sangrentas na Africa do Sul contra trabalhadores africanos.


José Craveirinha



DOWNLOAD: FIRE TONGUE & CHIEF COOK - WAYO BRING WAR - 2006 - WMA

SOBRE O HAXIXE

(...) submeter-se à sua ação apenas em ambientes ou circunstâncias favoráveis. Sendo toda alegria e todo bem-estar superabundantes, toda dor e toda angústia são imensamente profundas. Tenha alguns cúmplices cujo talento intelectual se aproxime do seu. Suponho que você teve a precaução de escolher bem o seu momento para esta expedição aventurosa. Você não tem deveres a cumprir que exijam a pontualidade e a exatidão; nenhuma tristeza de família; nenhuma dor de amor. É preciso ter cuidado. Esta infelicidade, esta lembrança de um dever que reclama sua vontade, sua atenção a um momento determinado, envenenarão o seu prazer. A inquietação será transformada em angústia; a tristeza, em tortura. Se observadas todas estas condições preliminares, o tempo estiver bom, se você estiver em um ambiente favorável, como uma paisagem pitoresca ou um apartamento poeticamente decorado e se, além disso, você puder contar com um pouco de música, então tudo é para o melhor (...)

Charles Baudelaire



DOWNLOAD: BELLERUCHE - TURNTABLE SOUL MUSIC - 2007 - VBR






DOWNLOAD: FUGI - MARY, DON'T TAKE ME ON NO BAD TRIP - 1968 - 320 Kbps
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Tal como nos é apresentada, a crise planetária das finanças parece-se com um desses maus filmes produzidos pela indústria de sucessos pré-fabricados que chamamos hoje de cinema. Nada falta nele, incluindo mesmo os clarões que provocam terror: é impossível impedir a sexta-feira negra, parece que tudo vai desmoronar, tudo mesmo...

Mas a esperança permanece. Diante do espectáculo, aterrorizados e concentrados como num filme-catástrofe, a pequena quadrilha dos poderosos, os bombeiros do fogo monetário, os Sarkozy, Paulson, Merkel, Brown e outros Trichet, gastam bilhões para encher um buraco central: “Salvar os bancos!”. Esse nobre grito humanista e democrático é lançado por todas as gargantas políticas e midiáticas. Para os atores principais do filme, ou seja, os ricos, como também os seus serventuários, assim como para os seus parasitas e todos aqueles que os incensam, um final feliz é inevitável, diante do que eles, os políticos que o cercam e o mundo são hoje.

Mas voltemo-nos antes para os espectadores desse show, a multidão atônita que ouve como uma algazarra longínqua os gritos alucinantes dos banqueiros, imagina os fins-de-semana cansativos da ilustre equipe de chefes de governo, vê passar diante dos seus olhos estatísticas tão gigantescas quanto obscuras, e compara tudo isso mecanicamente aos recursos com os quais vive, ou mesmo, para uma parte muito considerável da humanidade, a pura e simples falta de recursos que forma o fundo amargo e corajoso de sua vida. Eu digo que aí é que está o real, ao qual não teremos acesso enquanto não nos desviarmos da tela do espectáculo para considerar a massa invisível daqueles para quem o filme-catástrofe, incluindo um inesperado final cor-de-rosa (com Sarkozy abraçando Merkel, e todos chorando de alegria), nunca deixou de ser um teatro de sombras.

Nas últimas semanas, falou-se sistematicamente da “economia real” (a produção de bens). Oposta a ela está a “economia irreal” (a especulação), de onde viria todo o mal, visto que os seus agentes teriam se tornado “irresponsáveis”, “irracionais” e “predadores”. Essa distinção é, evidentemente, absurda. O capitalismo financeiro é, desde há cinco séculos, uma peça central do capitalismo. Quanto aos proprietários e incentivadores desse sistema, eles não são só, por definição, os responsáveis pelos lucros, e a sua “racionalidade” não é apenas medida pelos lucros. De fato, eles são não só os predadores como ainda têm a obrigação de o ser.

Não há, portanto, nada de mais real na produção capitalista que a sua febre mercantil ou a sua pulsão para a especulação. O retorno ao real não é, assim, o movimento que conduz da má especulação “irracional” à saudável produção. Esse retorno é antes o retorno à vida, imediata e refletida, de todos aqueles que habitam esse mundo. É a partir dessa posição que se pode observar sem fraquejar o capitalismo e o filme-catástrofe que ele nos apresenta nestes dias. O real não é o filme, mas a sala.

O que é que vemos? Vemos coisas simples e conhecidas de longa data: o capitalismo não é nada mais que um banditismo, irracional na sua essência e devastador para o futuro. Ele sempre cobrou por algumas curtas décadas de prosperidade selvaticamente desiguais um preço que é traduzido por crises ou pelo desaparecimento de quantidades astronômicas de valores, ou então por expedições punitivas sanguinárias em todas as zonas consideradas por ele como estratégicas ou ameaçadas, ou ainda com guerras mundiais através das quais a sua saúde é refeita.

Deixemos ao filme-crise, assim revisto, a sua força didática. Poderemos ainda assim ousar, face à vida das pessoas que assistem, elogiar um sistema que remete a organização da vida coletiva às pulsões mais baixas, à cobiça, à rivalidade, e ao egoísmo automatizado? Fazer o elogio de uma “democracia” onde os dirigentes são tão impunemente os serventuários da apropriação financeira privada? Será que é possível continuar a afirmar que é impossível tapar com milhões o buraco da segurança social, mas que devemos tapar, com bilhões, o buraco dos bancos?

A única coisa que podemos desejar nesta questão é que descubramos o poder didático nas lições que podem ser tiradas para os povos, e não para os banqueiros, para os governos que os servem e para os jornais que servem aos governantes, em todo esse sombrio espectáculo. Eu vejo dois níveis articulados deste retorno do real. O primeiro é claramente político. Como o filme tem mostrado, o fetiche “democrático” não passa de um serviço solícito aos bancos. O seu verdadeiro nome, o seu nome técnico, como proponho há muito tempo, é: capital-parlamentarismo. Convém, pois, como múltiplas experiências começaram a fazer nos últimos vinte anos, organizar uma política de natureza diferente.

Ela é e estará - por muito tempo ainda, sem dúvida – distante do poder do Estado, mas pouco importa. Ela começa, na base do real, pela aliança prática das pessoas mais imediatamente disponíveis para inventá-la: os novos trabalhadores vindos da África ou de outros lugares, e os intelectuais herdeiros das batalhas políticas das últimas décadas. Ela ampliar-se-á em função do que houver a fazer, ponto por ponto. Ela não manterá nenhuma espécie de relação orgânica com os partidos existentes e o sistema, eleitoral e institucional, que os mantém vivos. Ela inventará a nova disciplina daqueles que não têm nada, a sua capacidade política, a nova idéia do que será sua vitória.

O segundo nível é ideológico. É preciso inverter o velho veredito segundo o qual estaríamos vivendo “o fim das ideologias”. Vemos hoje, muito claramente, que essa pretensão não tem outra realidade do que a expressa pela palavra de ordem “salvemos os bancos”. Nada é mais importante do que reencontrar a paixão das idéias e contrapor ao mundo, visto como uma hipótese geral, a certeza antecipada de um outro curso de acontecimentos totalmente distinto. Ao espectáculo maléfico do capitalismo, nós opomos o real dos povos, a existência de todos no movimento próprio das idéias. A motivação pela emancipação da humanidade não perdeu em nada a sua força.


Alain Badiou



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O crash mostra que a terra é pequena demais para o progresso, para a velocidade da História. Daí a repetição dos acidentes. Nós vivemos com a convicção de que temos um passado e um futuro. Ora, o passado não passa; ele tornou-se monstruoso, ao ponto de não o tomarmos mais como referência. Quanto ao futuro, ele é limitado pela questão ecológica, o fim programado dos recursos naturais, como o petróleo. Resta, portanto, o presente a habitar. Mas o escritor Octavio Paz dizia: “O instante é inabitável, como o futuro”.



Paul Virilio







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Eu estou cansado de saber disso, mas a maioria não se convence que sem governo é melhor.
Desde criança sinto um eterno zumbido no ouvido de que o governo não presta.
Hoje estou com perto de 50 anos e o zumbido de que o governo não presta aumentou.
Que diabo! Uma coisa que não presta bota-se fora, não se deve aceitar!
Mas aí quem poderia governar-se por si?
Eu!... Eu mesmo podia me governar muito bem. Por que não?
Ora essa! Então não sei me dirigir por mim mesmo?
O governo fornece-me algumas muletas? Faltaria só isso! Não saber me governar! É o que venho fazendo há cinqüenta anos! Pois os animais se governam muito bem por si, quanto mais um de nós que tem mais recursos e mais fácil o pão.
Vamos ser razoáveis. Sempre dispensei e dispensaria perfeitamente o governo.
Nunca o consultei para nada, nem lhe solicitei ou recebi dele qualquer favor ou benefício.
O governo, o Estado, é que não procede reciprocamente comigo.
Mete-se em todos os meus negócios, atrapalha-me de todo jeito, quer saber quanto ganho, o que faço, de que vivo, e tira de mim o lucro do meu trabalho em licenças e impostos, em nome de instituições que eu não conheço, deixando-me só o que preciso para não pedir esmola.
Posso eu sozinho me opor à vontade do governo?? Não!? E por quê?
Impele-me pela força armada. Aí é que está.
Mas não digam que não saberia conduzir-me sem governo. Não sou só eu que não quero, somos todos.
Por que é que se formam partidos políticos de todas as cores? Não é para combater o governo? Aliança Liberal, o Partido Democrático, o Partido Católico, o Partido Socialista, o Partido Comunista e Cia., não são ou foram contra o governo? O governo não presta.
Como vedes não é só o anarquista que não quer governo, somos nós todos. Vamos então ser sinceros: quem é que gosta de ser governado? Além de tudo, o governo é um ente escravo de si mesmo, e quais garantias têm os governantes? As mesmas dos governados. O pau que dá no Chico dá na Joana! O governo é uma coisa tão absurda que não garante nem a si.
Tudo é questão de palavras. Estou convencido de que todos querem o mesmo que eu quero, só que à maioria falta a coragem de assumir a responsabilidade das próprias convicções e perder o amor aos privilégios adquiridos e nada mais.
Mas que o governo garanta alguma coisa de perene e eterno, todos estão cansados (como nós) de saber que isso é mentira, que o governo não garante coisa nenhuma, pois até ele é provisório e passageiro como uma estrela errante.
Por isso digo-vos: o governo não presta! E com igual razão os da última moda: bolchevista ou comunista, fascista ou socialista. Os nomes pouco importam. É que constituem um só conteúdo, uma coisa só: governo (ou desgoverno) e sempre pela força.


Armandinho
Texto publicado no periódico A Plebe, abril de 1933




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DOWNLOAD: BS 2000 - SIMPLY MORTIFIED - 2001 - VBR
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Vêde: a destruição prossegue docemente. Restam apenas aqui e além algumas cidades com os seus milhões de almas e nada mais. Pequenas marcas de sangue cada vez mais vivas assinalam a nossa passagem entre as fagulhas de carvão do tempo. Canhões ocupam a entrada da luz. E de Norte a Sul, de Leste a Oeste, de criança para criança, aguarda-se o sinal de fogo. Não estranheis os sinais, não estranheis este povo que oculta a cabeça nas entranhas dos mortos. Fazei todo o mal que puderdes e passai depressa.


António José Forte




DOWNLOAD: SABOTAGE - RAP É COMPROMISSO - 2001 - 192 Kbps










POÉTICA

Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.


Manuel Bandeira





DOWNLOAD: BOMB THE BASS - INTO THE DRAGON - 1988

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Y88b.Y8b88P Y88b. .d88P 888 888 d88P 888 T88b d8888888888
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Y8b

DOWNLOAD: JOHNNY CLARKE - DREADER DREAD - 1976~1978 - VBR > 192 Kbps
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- Escuta aqui, ó criolo…
- O que foi?
- Você andou dizendo por aí que no Brasil existe racismo.
- E não existe?
- Isso é negrice sua. E eu que sempre te considerei um negro de alma branca… É, não adianta. Negro quando não faz na entrada…
- Mas aqui existe racismo.
- Existe nada. Vocês têm toda a liberdade, têm tudo o que gostam. Têm carnaval, têm futebol, têm melancia… E emprego é o que não falta. Lá em casa, por exemplo, estão precisando de empregada. Pra ser lixeiro, pra abrir buraco, ninguém se habilita.
Agora, pra uma cachacinha e um baile estão sempre prontos. Raça de safados! E ainda se queixam!
- Eu insisto, aqui tem racismo.
- Então prova, Beiçola. Prova. Eu alguma vez te virei a cara? Naquela vez que te encontrei conversando com a minha irmã, não te pedi com toda a educação que não aparecesse mais na nossa rua? Hein, tição? Quem apanhou de toda a família foi a minha irmã. Vais dizer que nós temos preconceito contra branco?
- Não, mas…
- Eu expliquei lá em casa que você não fez por mal, que não tinha confundido a menina com alguma empregadoza de cabelo ruim, não, que foi só um engano porque negro é burro mesmo. Fui teu amigão. Isso é racismo?
- Eu sei, mas…
- Onde é que está o racismo, então? Fala, Macaco.
- É que outro dia eu quis entrar de sócio num clube e não me deixaram.
- Bom, mas pera um pouquinho. Aí também já é demais. Vocês não têm clubes de vocês? Vão querer entrar nos nossos também? Pera um pouquinho.
- Mas isso é racismo.
- Racismo coisa nenhuma! Racismo é quando a gente faz diferença entre as pessoas por causa da cor da pele, como nos Estados Unidos. É uma coisa completamente diferente. Nós estamos falando do crioléu começar a freqüentar clube de branco, assim sem mais nem menos. Nadar na mesma piscina e tudo.
- Sim, mas…
- Não senhor. Eu, por acaso, quero entrar nos clubes de vocês? Deus me livre.
- Pois é, mas…
- Não, tem paciência. Eu não faço diferença entre negro e branco, pra mim é tudo igual. Agora, eles lá e eu aqui. Quer dizer, há um limite.
- Pois então. O …
- Você precisa aprender qual é o seu lugar, só isso.
- Mas…
- E digo mais. É por isso que não existe racismo no Brasil. Porque aqui o negro conhece o lugar dele.
- É, mas…
- E enquanto o negro conhecer o lugar dele, nunca vai haver racismo no Brasil. Está entendendo? Nunca. Aqui existe o diálogo.
- Sim, mas…
- E agora chega, você está ficando impertinente. Bate um samba aí que é isso que tu faz bem.


Luís Fernando Veríssimo





DOWNLOAD: DAVID SHIRE -
THE TAKING OF PELHAM ONE TWO THREE OST - 1974 - 256 Kbps
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OPIÁRIO

É antes do ópio que a minh'alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
já não encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.

É por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre visões de cadafalsos
Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impressão de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

Ao toque adormecido da morfina
Perco-me em transparências latejantes
E numa noite cheia de brilhantes,
Ergue-se a lua como a minha Sina.

Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
Não faço mais que ver o navio ir
Pelo canal de Suez a conduzir
A minha vida, cânfora na aurora.

Perdi os dias que já aproveitara.
Trabalhei para ter só o cansaço
Que é hoje em mim uma espécie de braço
Que ao meu pescoço me sufoca e ampara.
(...)
Por isso eu tomo ópio. É um remédio
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.
(...)
Caio no ópio por força. Lá querer
Que eu leve a limpo uma vida destas
Não se pode exigir. Almas honestas
Com horas pra dormir e pra comer,
(...)
Tenho vontade de levar as mãos
À boca e morder nelas fundo e a mal.
Era uma ocupação original
E distraía os outros, os tais sãos.
(...)

Álvaro de Campos

Clique aqui e leia o poema completo.




DOWNLOAD: MORPHINE - THE NIGHT - 2000
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DOWNLOAD: THE BEST OF BLACK JAZZ RECORDS - 1971~1976 - 320 Kbps
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O comboio movia-se vagarosamente. Os soldados viram
Harry sentado no banco do parque. Então tudo começou. Foi uma mistura de vaias, apupos e pragas. Eles gritavam com ele.

"EI SEU FILHO DA PUTA!"
"DESERTOR!"
À medida que o comboio passava, vinha o outro:
"TIRA ESSE RABO DESSE BANCO!"
"COVARDE!" "BICHA DESGRAÇADA!"
"BARRIGUDO MEDROSO!"
Foi um comboio grande e lento.
"VENHA SE JUNTAR A NOS!"

"NÓS VAMOS ENSINÁ-LO A LUTAR, SEU MONSTRO!"
Os rostos eram brancos, morenos e pretos,sementes de ódio.

Charles Bukowski



DOWNLOAD: RAGE AGAINST THE MACHINE - 1992
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DOWNLOAD: RAGE AGAINST THE MACHINE - EVIL EMPIRE - 1996
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DOWNLOAD: RAGE AGAINST THE MACHINE - THE BATTLE OF LOS ANGELES - 1999
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Eu estou farto de muita coisa
não me transformarei em subúrbio
não serei uma válvula sonora
não serei paz
eu quero a destruiçáo de tudo que é frágil:
cristãos fábricas palácios
juízes patrões e operários
uma noite destruída cobre os dois sexos
minha alma sapateia feito louca
um tiro de máuser atravessa o tímpano de
duas centopéias
o universo é cuspido pelo cu sangrento
de um Deus-Cadela
as vísceras se comovem
eu preciso dissipar o encanto do meu velho
esqueleto
eu preciso esquecer que existo

mariposas perfuram o céu de cimento
eu me entrincheiro no arco-íris
Ah voltar de novo à janela
perder o olhar nos telhados como
se fossem o Universo
o girassol de Oscar Wilde entardece sobre os tetos
eu preciso partir um dia para muito longe
o mundo exterior tem pressa demais para mim
São Paulo e a Rússia não podem parar

quando eu ia ao colégio Deus tapava os ouvidos para mim?
a Morte olha-me da parede pelos olhos apodrecidos
de Modigliani
eu gostaria de incendiar os pentelhos de Modigliani
minha alma louca aponta para a Lua
vi os professores e seus cálculos discretos ocupando
o mundo do espírito
vi criancinhas vomitando nos radiadores
vi canetas dementes hortas tampas de privada
abro os olhos as nuvens tornam-se mais duras
trago o mundo na orelha como um brinco imenso
a loucura é um espelho na manhã de pássaros sem Fôlego


Roberto Piva




DOWNLOAD: SEUN KUTI & EGYPT 80 - MANY THINGS - 2008 - VBR
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COISAS DE GRAÇA



O anúncio dizia: “Amanhã você não vai pagar o seu cafezinho”.
Certamente era um café que se inaugurava, procurando cativar o público. Depois do famigerado
Petit Prince de Saint-Exupéry, cativar tornou-se palavra de consumo geral. Como o cafezinho.
Pois não era. A casa fechava-se e, a título de despedida sentimental, não cobraria o cafezinho que fora objeto do seu comércio durante 30 anos.
O freqüentador suspirou:
– Há 20 anos que tomo café nesta casa, e logo quando ela vai acabar é que institui o fornecimento gratuito.
Acrescentou:
– Não é pelo preço do cafezinho, que eu sempre paguei sem sacrifício, e continuaria a pagar, se a casa continuasse. É pela espécie de sonho acordado que isso me provoca, sonho que dura um momento, e se esfarela: as coisas de graça. Elas só ficam sendo de graça na hora em que deixam de ser coisas.
– Mas vem cá, você queria que tudo fosse de graça a vida inteira? – perguntou o amigo.
– Queria. Por que não? Se este cafezinho me é servido de graça neste instante, e, se eu voltar daqui a cinco minutos será servido outra vez de graça, e mais cinco minutos depois, e mais cinco e mais cinco... até eu ficar entupido de café e bradar: chega, não quero mais!, por que não posso pensar que uma sociedade bem organizada serviria tudo a todos, a troco de sorriso?
O outro ia retrucar com as leis da economia, as lições do Dr. Gudin, o bom senso, etc., mas o
rêveur éveillé não lhe deu folga:
– Saio daqui mal acostumado, vou ao Nino, janto uns camarões, retiro-me despreocupado, pois já não se pagam camarões no Brasil. Nisso corre o garçom ao meu encalço: “Doutor, o senhor se esqueceu da nota!” “Que nota”, respondo. “Eu sorri para você e para o restaurante, não é esse o pagamento?” Ele abana a cabeça desolado: “Continuamos cobrando em cruzeiros, doutor. E olhe que nos hotéis do Tjurs já se calcula em dólar.” Veja no que dá a ilusão do cafezinho grátis. No entanto, ao ler o anúncio, eu já estava inclinado a não cobrar de ninguém os meus serviços.
– E mudar-se para o hospício?
– Todos se mudariam para o hospício, isto é, não haveria hospício, pois ninguém mais ia enlouquecer por falta ou excesso de dinheiro. Você chama a isso de sociedade utópica, eu chamo simplesmente de sociedade, nome que anda falsificadíssimo.
Societas generis humani, para gastar o meu Cícero, que nem de graça cai mais no vestibular. Repare que não estou pedindo nada de graça no sentido comum, de alguém dar a outrem um par de sapatos para sentir-se superior e tirar diploma de generoso. O que eu proponho (proponho é modo de dizer, ninguém me escutaria se eu propusesse isso ao Ministério do Planejamento ou aos fabricantes de geléia) é dar de graça as coisas, retirando valor às coisas, e valorizando o ato de se desfazer delas. Todos passariam a oferecer serviços e bens, de que todos se utilizariam sem recorrer a financiamento, pé-de-meia, desfalque, insônia, úlcera duodenal, enfarte, assalto, homicídio, etc. O trabalho deixaria de ser motivo de injustiça, e a produção deixaria de ser causa de guerra. No começo, a gente faria cara feia, depois se acostumava com esse esporte de oferecer sem cobrar, já que a outra parte, de receber sem pagar, não causaria a menor dificuldade. Como isto não é possível agora, e suspeito que não o será nos anos que possivelmente ainda terei de vida, que é que vou fazer com este cafezinho grátis de última hora?
– Beber, uai.
– Solução de mineiro, está se vendo. Nada disso. Trouxe esta garrafinha e vou derramar nela o cafezinho, para guardar como lembrança. É o sinal de um mundo como poderia ser e não é. Pode beber o seu, que o meu ficará guardado no aparador lá de casa. Levei 30 anos para conquistar este troféu. O mundo não é de graça porque não quer. Ou por burrice.
Disse, derramou, e saiu, portando com unção a garrafinha de café gratuito.


Carlos Drummond de Andrade




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COMUNHÃO


Muito terá que ocultar a História, dama de véus rosados, beijadora dos que vencem. Bancará a distraída ou ficará doente de fingida amnésia; mentirá que foram mansos e resignados, talvez até felizes, os escravos negros do Brasil.

Mas os amos das plantações obrigam o cozinheiro a provar na frente deles cada prato. Venenos de lenta agonia escorregam entre as delícias da mesa. Os escravos matam; e também se matam ou fogem, que são maneiras de roubar ao amo a sua principal riqueza. Ou se revoltam acreditando, dançando, cantando, que é a maneira de se redimir e ressuscitar.

O cheiro das canas cortadas embebeda o ar das plantações e ardem fogos na terra e nos peitos: o fogo tempera as lâminas, repicam os tambores. Os tambores invocam os velhos deuses, que voam até essa terra de exílio, respondendo às vozes de seus filhos perdidos, e entram neles e fazem amor com eles arrancando-lhes música e uivos, devolvendo-lhes assim, intacta, a vida quebrada.

Na Nigéria ou no Daomé, os tambores pedem fecundidade para as mulheres e as terras. Aqui, não. Aqui, as mulheres geram escravos e as terras os aniquilam. Aqui, os deuses agrários cedem o passo aos deuses guerreiros. Os tambores não pedem fecundidade, pedem vingança; Ogum, o deus do ferro, afia punhais, e não enxadas.


RETÁBULO DA BAHIA

Dizem os que mandam na Bahia que negro não vai pro Céu, nem que seja rezador, porque tem o cabelo duro, espeta Nosso Senhor. Dizem que não dorme: ronca. Que não come: engole. Que não conversa: resmunga. Que não morre: acaba. Dizem que Deus fez o branco e pintou o mulato. O negro, dizem, o Diabo o cagou.

Toda festa de negros é tida como homenagem a Satanás, negro cruel, rabo, cascos, tridente, mas os que mandam sabem que, se os escravos se divertem de vez em quando, trabalham mais, vivem mais anos e têm mais filhos. Assim como a capoeira, ritual e mortal maneira de lutar corpo a corpo, faz de conta que é uma brincadeira vistosa, também o candomblé finge que é só dança e barulho. Nunca faltam, além disso, Virgens ou santos para disfarçar: não há quem proíba Ogum quando ele vira São Jorge, cavaleiro louro, e os astutos deuses negros encontram esconderijo até nas chagas de Cristo.

Na Semana Santa dos escravos, é um justiceiro negro quem faz explodir o traidor, o Judas branco, boneco pintado de cal; e quando os escravos mostram a Virgem na procissão, é o negro São Benedito quem está no centro de todas as homenagens. A Igreja não conhece esse santo. Segundo os escravos, São Benedito foi escravo como eles, cozinheiro de um convento, e os anjos mexiam as panelas enquanto ele rezava suas preces.

Santo Antônio é o preferido dos amos. Santo Antônio ostenta galões militares, recebe soldo e é especialista em vigiar negros. Quando um escravo escapa, o amo joga o santo no canto das escórias. Santo Antônio fica em penitência, de boca para baixo, até que os cães agarrem o fugitivo.


TUA OUTRA CABEÇA, TUA OUTRA MEMÓRIA

Do relógio de sol do convento de São Francisco, uma lúgubre inscrição recorda aos caminhantes como a vida é fugaz: Cada hora que passa te fere e a última te matará.

São palavras escritas em latim. Os escravos negros da Bahia não entendem latim nem sabem ler. Da África trouxeram deuses alegres e brigões: com eles estão, com eles se vão. Quem morre, entra. Soam os tambores para que o morto não se perca e chegue à região de Oxalá. Lá na casa do criador dos criadores, espera por ele sua outra cabeça, a cabeça imortal. Todos nós temos duas cabeças e duas memórias. Uma cabeça de barro, que será pó, e outra invulnerável para sempre às mordidas do tempo e da paixão. Uma memória que a morte mata, bússola que acaba com a viagem, e outra memória, a memória coletiva, que viverá enquanto viver a aventura humana no mundo.

Quando o ar do universo se agitou e respirou pela primeira vez, e nasceu o deus dos deuses, não havia separação entre a terra e o céu. Agora parecem divorciados; mas o céu e a terra voltam a se unir cada vez que alguém morre, cada vez que alguém nasce e cada vez que alguém recebe os deuses em seu corpo palpitante.


Eduardo Galeano, sobre a Bahia de 1763




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CONTRA A UNIVERSIDADE





Desde há bastante tempo tinha vontade de escrever algo sobre a Universidade, as universidades, essa poderosa instituição tão pouco conhecida no seu funcionamento interno. Das universidades saem os líderes políticos, os professores, os juristas, economistas, doutores...: praticamente todo o tecido de grupos e interesses que mantém a sociedade de classes.


Lealdade.
O objetivo principal da Universidade não é contribuir para a formação intelectual das pessoas nem fazer pesquisa para criar, promover e distribuir um "saber" supostamente neutro que ajudará ao "progresso". O "saber" é simplesmente o veículo simbólico que maneja a instituição. O objetivo da Universidade é contribuir para manter os pressupostos ideológicos do Estado, sustentar a sociedade de classes e libertar o aparelho militar de certas das suas funções. Por isso a universidade precisa dum tipo de lealdade (também militarista) camuflada sob os amuletos ideológicos da "pesquisa", a "tradição disciplinar", as "escolas de pensamento", a "missão da Ciência", etc. O que está em jogo é a formação de elites técnicas e intelectuais leais ao Estado, mas dum modo que ao mesmo tempo ofereça aos membros dessas elites a miragem internamente cômoda da "liberdade de expressão", "liberdade de cátedra" ou "liberdade de pesquisa".

Mediocridade. Mas para os membros destas elites, em conjunto, o que está em jogo no fundo não é a "qualidade" dessa pesquisa, nem as suas metas, interesse objetivo, transcendência universal ou "nacional", etc. O que está em jogo é, singelamente, um posto de trabalho melhor remunerado do que a média do país, uma série de recursos econômicos (bolsas de pesquisa que permitem realizar viagens profissionais, fundos para equipamento, grandes projetos), e uma série de recompensas simbólicas: reconhecimento público, visibilidade, pelo menos um minuto de TV dos 15 de que falava Warhol, prestígio social, ou essa auto-satisfação de "sermos escutados" nas aulas ou de "sentirmo-nos úteis" que apaga temporariamente a nossa mediocridade generalizada. O professor ou professora de universidade típico é um ser medíocre, sem imaginação, rotineiro, conservador (quando não patentemente reacionário), medroso das mudanças, inseguro - e por isso distante dos alunos e colegas de profissão -, zeloso da propriedade das "suas idéias", insolidário com os "inferiores", competitivo com os "iguais" e submisso aos "superiores". O objetivo final do professor típico é chegar "o mais alto" que puder consoante às suas capacidades e, sobretudo, consoante à rede de alianças pessoais e de grupo que possa ter criado em anos de manobras incertas. Grande parte da vida universitária perde-se então, não no "cultivo do pensamento" ou da técnica, mas em críticas pessoais, burocracia, traições e o estabelecimento das lealdades necessárias para progredir. Periodicamente, numa mímese dos parlamentos políticos, o corpo professoral e os manipulados estudantes votam democraticamente os seus Altos Cargos para que tudo fique igual.

Rivalidade. O longo processo para a reprodução da elite universitária começa já no primeiro ano de estudos. Como instituição gremial, é já nessa altura que os alunos mais adaptados começam a compreender os protocolos do jogo. Eles (e, menos, elas) são os que substituirão os seus mentores. É aí onde começam a perceber as injustiças das notas, as arbitrariedades do cômputo quantitativo do "saber" (um "saber" que deveria estar, por definição, sujeito ao seu derrubamento pela História), as teimas e graças dos professores, as suas inconfessadas preferências pessoais e os seus inconfessados aborrecimentos. Muitos alunos escolherão assim as matérias optativas em virtude das graças do professor ou professora ou da sua generosidade com as notas (muitas vezes falsa, demagógica). Como reprodução da estrutura familiar, cada aula fornece diariamente um Pai ou uma Mãe e muitos filhos e filhas dos quais sairão os favoritos: aqueles que conhecem já desde o início as leis, regulamentos, oportunidades de avanço profissional, esquemas de afiliação. Os poucos jovens clarividentes que querem escapar a esta tortura auto-imposta costumam acabar sem trabalho, ou com maus trabalhos, e perenemente frustrados da sua experiência. Ao final de quatro ou cinco anos repete-se o infortúnio massivo que, embora conhecido, precisa ser lembrado: milhares de jovens acabam transmudados em pequenas fotografias, uniformes e uniformizados, simetricamente dispostos e dispostas no Museu do Desemprego, com um sorriso forçado e um vazio ainda maior na cabeça.

Dominação. Onde fica o "saber", a circulação das "idéias", a altruísta exploração do pensamento? Fica na falsa superfície deste sistema injusto, opressor e mesmo doente. O saber fica como simples escusa da maquinaria da dominação. O motor e objetivo da Universidade é singelamente a distribuição grupal dos recursos materiais e simbólicos, a distribuição do poder. Como um engenho do movimento perpétuo, a Universidade reproduz a si própria para refinar o princípio patriarcal da obediência, base da moral e da estrutura capitalista de classes. E a cada poucos anos, como no Mundo Real, a Universidade recria-se, fagocita alguns dos seus próprios filhos e filhas, e vota, democraticamente, os seus próprios líderes, os seus próprios monstros.


Celso Álvarez Cáccamo




DOWNLOAD: RACIONAIS MC'S - RAIO X DO BRASIL - 1993 - 128 Kbps


Katmandu, 1973


Roubada dos Marron Nyamen




DOWNLOAD: ALTON ELLIS - ARISE BLACK MAN - 1968~1978 - 160 Kbps
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Tudo o que pode ser dito a respeito do sufrágio pode ser resumido em uma frase:

Votar significa abrir mão do próprio poder.

Eleger um senhor, ou muitos senhores, seja por longo ou curto prazo, significa entregar a uma outra pessoa a própria liberdade.

Chamado monarca absoluto, rei constitucional ou simplesmente primeiro ministro, o candidato que levamos ao trono, ao gabinete ou ao parlamento sempre será o nosso senhor. São pessoas que colocamos "acima" de todas as leis, já que são elas que as fazem, cabendo-lhes, nesta condição, a tarefa de verificar se estão sendo obedecidas.

Votar é uma idiotice.

É tão tolo quanto acreditar que homens comuns como nós sejam capazes, de uma hora para outra, num piscar de olhos, de adquirir todo o conhecimento e a compreensão a respeito de tudo. As pessoas que elegemos são obrigadas a legislar a respeito de tudo o que se passa na face da terra: como uma caixa de fósforos deve ou não ser feita, ou mesmo se o país deve ou não guerrear; como melhorar a agricultura, ou qual deve ser a melhor maneira para matar alguns árabes ou negros. É muito provável que se acredite que a inteligência destas pessoas cresça na mesma proporção em que aumenta a variedade dos assuntos com os quais elas são obrigadas a tratar.

Porém, a história e a experiência mostram-nos o contrário.

O poder exerce uma influência enlouquecedora sobre quem o detém e os parlamentos só disseminam a infelicidade.

Nas assembléias acaba sempre prevalecendo a vontade daqueles que estão, moral e intelectualmente, abaixo da média.

Votar significa formar traidores, fomentar o pior tipo de deslealdade.

Certamente os eleitores acreditam na honestidade dos candidatos e isto perdura enquanto durar o fervor e a paixão pela disputa.

Todo dia tem seu amanhã. Da mesma forma que as condições se modificam, o homem também se modifica. Hoje seu candidato se curva à sua presença; amanhã ele o esnoba. Aquele que vivia pedindo votos, transforma-se em seu senhor.

A atmosfera do governo não é de harmonia, mas de corrupção. Se um de nós for enviado para um lugar tão sujo, não será surpreendente regressarmos em condições deploráveis.

Por isso, não abandone sua liberdade.

Não vote!

Em vez de incumbir os outros pela defesa de seus próprios interesses, decida-se. Em vez de tentar escolher mentores que guiem suas ações futuras, seja seu próprio condutor. E faça isso agora! Homens convictos não esperam muito por uma oportunidade.

Colocar nos ombros dos outros a responsabilidade pelas suas ações é covardia.

Não vote!


Elisée Reclus




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VOTE E CONFIRME



1) Aceito a competição como base do nosso sistema social e econômico, mesmo se tenho consciência que o seu funcionamento gera frustração e cólera por entre a esmagadora maioria dos perdedores;

2) Aceito ser humilhado ou explorado na condição de também eu humilhar e explorar quem quer que se encontre abaixo de mim na hierarquia social;

3) Aceito a exclusão social dos marginais, desadaptados e dos fracos em geral, uma vez que a integração social deve ter limites;

4) Aceito remunerar os bancos a fim destes investirem o meu salário conforme as suas conveniências, mesmo sem receber qualquer dividendo pelos seus gigantescos lucros. Aceito igualmente que os bancos me exijam uma comissão elevada para me emprestarem dinheiro que não é outro senão o dos seus clientes;

5) Aceito que permanentemente sejam congeladas e sejam lançadas fora toneladas de alimentos para que os preços não baixem, o que é preferível a dá-los às pessoas necessitadas, o que permitiria salvar algumas centenas de milhões de pessoas da fome;

6) Aceito que seja expressamente proibido pôr fim aos nossos dias, mas que seja perfeitamente tolerável que se vá morrendo aos poucos ao inalar-se ou ingerir-se substâncias tóxicas autorizadas pelos Estados;

7) Aceito que se faça a guerra para fazer reinar a paz. Aceito que em nome da paz a primeira despesa pública dos Estados seja para o orçamento do exército. Aceito igualmente que os conflitos sejam criados artificialmente a fim de garantir o escoamento dos estoques de armas e de fazer girar a economia mundial;

8) Aceito a hegemonia do petróleo sobre a nossa economia, muito embora se trate de uma economia de elevado custo e geradora de poluição, pelo que estou de acordo em travar (e mesmo impedir) qualquer substituição, mesmo se se vier a descobrir um qualquer meio gratuito e ilimitado de produzir energia, o que seria uma grande perda e prejuízo elevado para o nosso sistema econômico;

9) Aceito que se condene a morte do próximo, salvo se o Estado decretar que se trata de um inimigo, caso esse em que devemos então encorajar a que seja morto;

10) Aceito que se divida a opinião pública criando partidos de direita e partidos de esquerda, que passarão o seu tempo a combater-se entre si, dando a impressão de fazer avançar o sistema. Aceito, além disso, todas as divisões possíveis e imagináveis, visto que elas me permitirão canalizar a minha cólera para os tais inimigos citados, e cujo retrato será agitado perante os meus olhos;

11) Aceito que o poder de moldar e formatar a opinião pública, outrora entregue às religiões, esteja hoje nas mãos dos negociantes, não eleitos democraticamente e que são totalmente livres de controlar os Estados, já que estou plenamente convencido do bom uso que não deixarão de fazer daquele poder sobre a opinião pública;

12) Aceito a idéia que a felicidade se resume ao conforto, amor ao sexo, e à liberdade de satisfazer todos os desejos, pois é isso que a publicidade não se cansa de me transmitir. Quanto mais infeliz, mais eu hei de consumir, e ao desempenhar com competência este meu papel, estou contribuindo para o bom funcionamento da nossa economia;

13) Aceito que o valor de uma pessoa seja medido em função da sua conta bancária, assim como a sua utilidade social esteja dependente da sua produtividade, e não tanto das suas qualidades, pelo que será excluído do sistema quem não se mostre suficientemente produtivo;

14) Aceito que os industriais, os militares e os políticos se reúnam regularmente para tomar decisões, sem nos consultar, sobre o futuro da vida e do planeta;

15) Aceito que os políticos possam ter uma duvidosa honestidade e, por vezes, sejam corruptos, perante as fortes pressões de que eles são alvos, desde que para a maioria dos cidadãos a regra seja a tolerância zero;

16) Aceito que a procura do lucro seja o fim último da Humanidade, e que a acumulação das riquezas seja realização efetiva da vida humana;

17) Aceito a destruição das florestas, a quase destruição da fauna marítima dos rios e oceanos. Aceito o aumento da poluição industrial e a dispersão de venenos químicos e de elementos radioativos na natureza. Aceito a utilização de todas as espécies de aditivos químicos na minha alimentação, porque estou convencido que, se aí são introduzidos, é porque são úteis e desprovidos de risco;

18) Aceito a guerra econômica que se alastra pelo planeta, mesmo se sinto que ela nos conduz para uma catástrofe sem precedentes;

19) Aceito esta situação e admito que não posso fazer absolutamente nada para a mudar ou melhorar;

20) Aceito ser tratado como besta, pois feitas as contas, penso que não valho mais que isso;

21) Aceito não levantar qualquer questão, fechar os olhos a tudo isso e não me opor a nada, uma vez que estou demasiado ocupado com a minha vida e já tenho preocupações que me cheguem. Aceito mesmo defender até à morte este contrato se mo pedirem;

22) Aceito pois, consciente e voluntariamente, este meu triste destino contratual que me colocaram à frente dos olhos e que vou assinar, apesar de tal me impedir de ver a realidade das coisas.


Amigos da Terra



ORAÇÃO


Capital nosso que estais neste mundo, Deus todo-poderoso, que altera o curso dos rios e fura as montanhas, que separa os continentes e une as nações, criador das mercadorias e fonte de vida, que comanda os reis e os súditos, os patrões e os assalariados, que vosso reino se estabeleça sobre toda a terra;

Dai-nos muitos compradores que adquiram nossas mercadorias, tanto as más como as boas;

Dai-nos trabalhadores miseráveis que aceitem sem revolta todos os trabalhos e contentem-se com o mais vil salário;

Dai-nos tolos que creiam em nossos anúncios;

Fazei com que nossos devedores paguem integralmente suas dívidas e que o banco desconte nossos papéis;

Fazei com que
Mazas* não se abra jamais para nós e afastai-nos da falência;

Concedei-nos rendimentos perpétuos.


Amém

Paul Lafargue


*
Mazas: nome de uma prisão francesa no século XIX.



DOWNLOAD: MF DOOM - SPECIAL HERBS 1 & 2 - 2002
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DOWNLOAD: MF DOOM - SPECIAL HERBS 3 & 4 - 2003
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OBRIGADO A VOTAR



ser obrigado a votar (não é votar), obrigado a opinar (não é opinar), a fazer parte (é não fazer parte), obrigado a escolher (não é escolher), obrigado a compartilhar (não é compartilhar), obrigado a ir a uma urna (tumba da liberdade), obrigado a todo um conjunto ridículo e torturante do espetáculo dessa "democracia" ridícula, é não saber o que é democracia nem o que é viver em uma. todas as obrigações (votar, alistamento, alfabetização, fumo, prostituição) são sintomas explícitos de uma semi-ditadura (são a maneira inventada pelos brasileiros para exercerem uma ditadura sem parecer: todos os ditadores entre vocês são "presidentes da república"), de um fascismo de imaginário e comportamento, de pressão dos poderes contra as mais elementares liberdades conquistadas tão arduamente e com tanta ingenuidade e sangue.

Alberto Lins Caldas






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Afirmamos que o plágio é o verdadeiro método artístico moderno. O plágio é o crime artístico contra a propriedade. É roubo, e na sociedade ocidental o roubo é um ato político.


Stewart Home











DOWNLOAD: BLACK NASTY - TALKING TO THE PEOPLE - 1973 -
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DOWNLOAD: EL CHICANO - VIVA! THEIR VERY BEST - 1976 - 224 Kbps







Por que deveríamos estar tão desesperadamente apressados para ser bem-sucedidos e em empreendimentos tão desesperadores? Se um homem não acompanha o passo de seus companheiros, talvez seja porque ele ouve tambores diferentes. Deixe-o marchar de acordo com a música que ouve, por mais compassada e distante que seja.


Henry David Thoreau









DOWNLOAD: RICO RODRIGUEZ - MAN FROM WAREIKA - 1976 - VBR
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DOWNLOAD: WANDO - 1975 - 320 Kbps
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Nós não lutamos por um mundo no qual a garantia para não se morrer de fome troca-se pelo risco de morrer de tédio.


Raoul Vaneigem







DOWNLOAD: MANFRED HÜBER & SIGFRIED SCHWAB -
- VAMPYROS LESBOS (remasterizado+bonus tracks) - 1969 - 256 Kbps
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parte 2:
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Eu também sou candidato a deputado. Nada mais justo. Primeiro: eu não pretendo fazer coisa alguma pela Pátria, pela família, pela humanidade.
Um deputado que quisesse fazer qualquer coisa dessas, ver-se-ia bambo, pois teria, certamente, os duzentos e tantos espíritos dos seus colegas contra ele.
Contra as suas idéias levantar-se-iam duas centenas de pessoas do mais profundo bom senso.
Assim, para poder fazer alguma coisa útil, não farei coisa alguma, a não ser receber o subsídio.
Eis aí em que vai consistir o máximo da minha ação parlamentar, caso o preclaro eleitorado sufrague o meu nome nas urnas.
Recebendo os três contos mensais, darei mais conforto à mulher e aos filhos, ficando mais generoso nas facadas aos amigos.
Desde que minha mulher e os meus filhos passem melhor de cama, mesa e roupas, a humanidade ganha. Ganha, porque, sendo eles parcelas da humanidade, a sua situação melhorando, essa melhoria reflete sobre o todo de que fazem parte.
Concordarão os nossos leitores e prováveis eleitores, que o meu propósito é lógico e as razões apontadas para justificar a minha candidatura são bastante ponderosas.
De resto, acresce que nada sei da história social, política e intelectual do país; que nada sei da sua geografia; que nada entendo de ciências sociais e próximas, para que o nobre eleitorado veja bem que vou dar um excelente deputado.
Há ainda um poderoso motivo, que, na minha consciência, pesa para dar este cansado passo de vir solicitar dos meus compatriotas atenção para o meu obscuro nome.
Ando mal vestido e tenho uma grande vocação para elegâncias.
O subsídio, meus senhores, viria dar-me elementos para realizar essa minha velha aspiração de emparelhar-me com a deschanelesca elegância do Senhor Carlos Peixoto.
Confesso também que, quando passo pela Rua do Passeio e outras do Catete, alta noite, a minha modesta vagabundagem é atraída para certas casas cheias de luzes, com carros e automóveis à porta, janelas com cortinas ricas, de onde jorram gargalhadas femininas, mais ou menos falsas.
Um tal espetáculo é por demais tentador, para a minha imaginação; e eu desejo ser deputado para gozar esse paraíso de Maomé sem passar pela algidez da sepultura.
Razões tão ponderosas e justas, creio, até agora, nenhum candidato apresentou, e espero da clarividência dos homens livres e orientados o sufrágio do meu humilde nome, para ocupar uma cadeira de deputado, por qualquer Estado, província ou emirado, porque, nesse ponto, não faço questão alguma.
Às urnas.

Lima Barreto



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DOWNLOAD: PEANUT BUTTER WOLF -
PEANUT BUTTER BREAKS - 2001 - 192 Kbps

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Deverá ser o panfleto a forma literária de uma época como a nossa.
Vivemos tempos de paixões políticas acesas, em que os meios de livre expressão se apresentam cada vez mais raros, e reina a mentira organizada a uma escala até hoje nunca vista. Para preencher as lacunas da história, afigura-se o panfleto o utensílio ideal.


George Orwell



DOWNLOAD: SUPERFUNK - RARE FUNK FROM DEEP IN THE CRATES - VBR

FORMAS DE PROTESTO NÃO-VIOLENTO





- greve (em muitas modalidades: greve de zelo; greve de fome; greve ao trabalho)

- desobediência civil

- objeção de consciência (que tem também diversas modalidades, como a objeção fiscal)

- obstrução civil

- boicotes sociais

- embargos

- realização de manifestações de rua ou cortejos

- realização de marchas

- realização de assembléias públicas

- sit-ins, sit-down

- ocupações de vias públicas ou de certos locais

- não-cooperação (legal ou ilegal)

- mediação

- discussão e negociação

- informação

- teatro de rua e representações públicas

- atos públicos simbólicos

- vigílias

- concertos, canções de rua (ou atos)

- cartas abertas

- petições e abaixo-assinados

- cartazes, panfletos e «picho» nas paredes e ruas

- publicações periódicas e não-periódicas

- realização de contra-cimeiras ou de conferências paralelas.

- emigração ou exílio


DOWNLOAD: BUTTHOLE SURFERS - PIOUGHD - 1991
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CÂNTICO NEGRO



"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


José Régio





DOWNLOAD: KING FLOYD - HEART OF THE MATTER - 1971 - 192 Kbps






É melhor para o homem não receber educação alguma do que recebê-la de seus governantes, pois esta espécie de educação nada mais é do que sujeição à canga, a mera disciplina do cão perdigueiro que através de rigorosa severidade aprende a sufocar o mais forte instinto de sua natureza e, em vez de devorar sua presa, a leva docilmente aos pés de seu dono.


Thomas Hodgins, 1823









DOWNLOAD: ROY BUDD - VIGILANTE! - 1971~1977 - 192 Kbps
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O mundo do trabalho é o mundo do horror do capital circulando

o horror nunca para de trabalhar
o horror está sempre trabalhando

quanto menos o indivíduo se propor a fazer alguma coisa
menor é a possibilidade de
o capitalismo se perpetuar

nunca trabalhei na vida
jamais tive a carteira assinada
foda-se o ministério do trabalho
foda-se o síndico e o sindicato

proletário é come-bosta come-merda
come-lixo come-estrume come-pedra
come-areia come-cascalho come-fezes

eu me recuso sistematicamente
a procurar emprego
sou rico
tenho seis centavos

zé da lua



DOWNLOAD: ISMAEL SILVA - SE VOCÊ JURAR - 1973 - 128 Kbps
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A SABOTAGEM ARTÍSTICA esforça-se para ser perfeitamente exemplar mas ao mesmo tempo retém um elemento de opacidade - não propaganda, mas choque estético - pavorosamente direta ainda que sutilmente direcionada - ação-como-metáfora.

Sabotagem Artística é o lado escuro do Terrorismo Poético - criação-através-da-destruição - mas não pode servir a nenhum Partido, a nenhum niilismo, nem mesmo à própria arte. Da mesma forma que o banimento da ilusão faz com que a percepção se acentue, a demolição da praga estética adocica o ar do mundo do discurso, do Outro. A Sabotagem Artística serve apenas à consciência, à atenção, ao despertar.

A Sabotagem Artística vai além da paranóia, além da desconstrução - a crítica definitiva - ataque físico em arte ofensiva - jihad estético. A mais leve mancha de trivial ego-icidade ou mesmo de gosto pessoal arruina sua pureza & vicia sua força. A Sabotagem Artística não pode nunca buscar o poder - apenas liberá-lo.

Trabalhos artísticos individuais (mesmo os piores) são, em sua maioria, irrelevantes - A Sabotagem Artística procura danificar instituições que usam a arte para diminuir a consciência & lucram com embustes. Este ou aquele poeta ou pintor não pode ser condenado por falta de visão - mas as Idéias malignas podem ser atacadas através dos artefatos por elas geradas. A MUZAK é criada para hipnotizar & controlar - seu maquinário pode ser esmagado.

Queimar livros em público - por que caipiras & funcionários do governo devem ter o monopólio dessa arma? Romances sobre crianças possuídas por demônios; a lista de bestsellers do New York Times; tratados feministas sobre pornografia; livros escolares (especialmente Estudos Sociais, Moral e Cívica, Saúde); pilhas de New York Post, Village Voice & outros jornais de supermercado; compilações escolhidas de editores cristãos; alguns romances da Harlequin - uma atmosfera festiva, garrafas de vinho & baseados passados em círculo em uma clara noite de outono.

Jogar dinheiro fora na Bolsa de Valores foi Terrorismo Poético bastante razoável - mas destruir o dinheiro teria sido boa Sabotagem Artística. Atacar transmissões de TV & transmitir alguns poucos minutos pirateados de arte Caota incendiária seria um feito de Terrorismo Poético - mas simplesmente explodir a torre de transmissão seria uma Sabotagem Artística perfeitamente adequada. Se certas galerias & museus merecem um tijolo ocasional em suas janelas - não destruição, mas uma sacudidela na complacência - então o que dizer dos BANCOS? Galerias transformam a beleza em mercadoria, mas bancos transmutam a Imaginação em fezes e dívidas. Não ganharia o mundo um grau de beleza com cada banco que pudesse ser estremecido... ou derrubado? Mas como? A Sabotagem Artística deve provavelmente manter-se longe da política (é tão entediante) - mas não de bancos.

Não faça piquetes - vandalize. Não proteste - desfigure. Quando feiúra, concepções pobres & desperdícios estúpidos forem forçados sobre ti, torna-te Ludita, joga teu sapato nos trabalhos, retalia. Esmaga os símbolos do Império em nome de nada além do anseio do coração pela virtude.


Hakim Bey




DOWNLOAD: AZYMUTH - BUTTERFLY - 2008 - VBR
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VIADUTOS












– Endereço do colega?
– Viaduto São Sebastião, pilastra n.º 4, lado esquerdo, na Presidente Vargas. Apareça por lá.
– Ótimo. Vou aparecer, mas agora não. Estou de mudança.
– Se não for indiscrição, pode-se saber para onde?
– Não sei ainda. Moro no viaduto de Japeri, aliás muito confortável, mas compreende, né? Um pouco longe. Procuro um na cidade.
– Já experimentou Botafogo?
– Fui eu que inaugurei. Era uma habitação deliciosa, aliás duas, com vista panorâmica, banho de mar em frente, etc. Mas sabe o que aconteceu: estragaram aquilo, botaram jardins, espelhos d’água...
– É. Estão sempre atrapalhando.
– Espelho d’água, vá lá, serve para a toalete. Mas o jardim...
– Jardim não é bom para secar a roupa?
– Em tese. Mas há sempre um guarda querendo defender as plantas, implicando com os moradores.
– Tem razão. Na vida, o essencial é paz.
– Também acho. Folgo em saber que estamos de acordo neste ponto fundamental. Mas, sabe? Os viadutos estão difíceis.
– É, ouço dizer. Mesmo havendo tantos por aí?
– Todos lotados. Dizem que onde cabem três cabe mais um. Eu discordo. Por essa teoria, onde cabem 20, 50, mil, cabe sempre mais um. E os viadutos tornam-se inabitáveis, ficam iguaizinhos aos edifícios, o que, francamente, caro colega, não é vantagem.
– Vejo que o amigo aprecia a solidão.
– Solidão a dois, a três, eu aprecio, quando os colegas sabem viver em comunidade. A gente não está nem sozinha nem com multidão. Equilibrado. Cada um cuida de si, e reina ordem no viaduto. O que eu não suporto é viaduto desorganizado. Sou muito exigente neste particular.
– Estou vendo que lá em Japeri o senhor deve ser uma espécie de síndico.
– Que síndico? Quem falou em síndico? Nós três nos autogovernamos. Eu, que atendo por Quilo-e-Meio, seu criado (não cheguei a crescer muito, em todo caso não me chamam de Meio-Quilo), o Vai-por-Mim e a Marlene Garbo.
– Por que Marlene Garbo? Não é acumulação?
– Por que ela tem as pernas de Marlene Dietrich e o jeito da Greta Garbo. A combinação é genial, sabe? Tem vezes que a gente chama ela de Margá. Santa mulher. Já teve os tubos, viajou por aí, não guardou nem pinta de grã-finagem.
– E o Vai-por-Mim?
– Não tenho queixa dele. Só que anda com mania de jogar na Bolsa, nosso viaduto está cheio de balancetes, prospectos, gráficos. Tenho medo que ele fique rico, daí a pouco começa a botar banca.
– Dê uns conselhos ao Vai-por-Mim.
– Dei. Ele sonha em descobrir jazida de tório em Japeri, para fundar o Banco Nacional de Habitação em Viadutos, Pontes e Congêneres. Não deu sorte na Loteca, hoje diz que o plá é investir. Eu preveni a ele: Ficando rico, a primeira coisa que vai fazer é cobrar aluguel nos viadutos.
– Os viadutos são do Estado.
– E daí? Até o Estado perceber, ele já dobrou a fortuna. O colega desculpe, mas isso é safanagem.
– Diga ao Vai-por-Mim que apareça aqui no São Sebastião, para batermos um papo.
– Vai tirar essas minhocas da cabeça dele?
– Não sei... A idéia me parece aproveitável. A socialização dos viadutos, uma cadeia nacional de Hilton dos homens e mulheres independentes...Viadutos bem funcionais, o abrigo ao alcance de todos... Um problema social que se resolve...
– Sem essa! Eu a querer salvar o Vai-por-Mim, e o colega pensando em tirar partido da loucura dele! Acabando com a paz, a relativa paz que ainda se goza nos viadutos! Não conte comigo e passe muito mal, traidor!


Carlos Drummond de Andrade




DOWNLOAD: ED BOGAS - BLACK GIRL OST - 1972 - 192 Kbps







DOWNLOAD: N.W.A - STRAIGHT OUTTA COMPTON - 1988 - 192 Kbps
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Os tristes anos de guerra que passamos (e terão eles passado?) geraram, entre outros males, o da desconfiança, - que separa os homens. Negros tempos, em que o inimigo pode estar em toda parte; não se olha: espreita-se; não se fala; sussurra-se; não se vai direto a nenhum assunto, como um coração em liberdade: rodeia-se. Rodeia-se e encontra-se o Curvo de Ibsen. “Nem morto nem vivo. Nevoeiro. Lama. Sem forma... o Curvo não ataca. Triunfa sem lutar.” A imagem da hipocrisia postou-se nos mais belos caminhos. Oh, o cansaço imenso da guerra não está somente nos ombros dos soldados que batalharam: está em todos que queriam viver sinceramente; está nos que não puderam fazer nada, que foram detidos e paralisados, transferidos para um dia que talvez não alcancem – e, de qualquer modo, postos fora de ação, pelas circunstâncias condenados à inércia no justo momento de construir, momento que nem sempre volta, e quando volta já não é o mesmo.

O fim da guerra, com seus desenlaces pavorosos, abriu uma válvula aos compromissos e desesperos do mundo; e assistimos a espetáculos de brutalidade que quase excedem os da própria guerra. Por ele vemos já não a atrocidade dos combates, nem os recursos demoníacos alcançados pelo homem em atacar ou defender-se – mas a perversão a que esses anos conduziram, o estado de deformação que a criatura humana atingiu, depois de tantos exercícios macabros; a facilidade com que se resvala até a mais negra baixeza, até o súbito esquecimento de toda a aprendizagem conquistada em longos séculos pelo animal humano.

Há uma alucinação coletiva, um desequilíbrio total, explicáveis por esses anos de turbulência, de ameaça constante dirigida contra os nervos, com a sábia perversidade dos que conhecem bem o seu alvo. E depois desse arrasamento brutal da terra, não ficaram apenas campos e cidades destruídos, cadáveres e famintos: ficou uma turba transtornada, pelo que viu, pelo que sofreu e até pelo que esperou sem ter acontecido.

Isso parece um pesadelo, mas não foi um pesadelo; parece uma história para aterrorizar, mas foi uma história vivida. Não é possível que a deseje repetir. E isso não impede que a repitam, porque não é só pelo platônico desejo de bem-estar e felicidade que se constrói nem um nem outro.

Os homens nem sempre têm os mesmos recursos, nem sempre falam a mesma linguagem, mas os seus objetivos são singularmente parecidos. Devíamos compreender nos outros o que compreendemos em nós. Mas de tanto pensarmos em nós, esquecemos freqüentemente os outros.

Se aplicássemos o que resta de simpatia, de caridade, de altruísmo, pensando um pouco além dos nossos próprios limites, desejando verdadeiramente contribuir para melhorar o mundo, encontraríamos algum caminho, porque todos nós, sob pena de sermos verdadeiramente imprestáveis, sempre somos capazes de realizar aqui ou ali alguma coisa de utilidade geral.

A paz humana, como a felicidade de cada um, não é uma vantagem repentina, que se conquista de assalto e se mantém para sempre: é um vagaroso dever, cultivado com clarividência. Ganha-se a paz do mundo com a paz de cada indivíduo assegurada. Não adianta destruir uma fábrica de munições deixando na Terra um coração inquieto e feroz: as armas não nascem por si, elas representam materialmente o desejo e o sonho dos homens. Mas ainda há muita loucura nos ares. E não a querem ver. E dentro dela não se pode trabalhar nem pensar!


Cecília Meireles


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Aprendei em nós o entusiasmo
Ensinai-nos o espanto da descoberta,
Não deis apenas as vossas respostas
Sonhai com as nossas questões
E sobretudo acolhei as nossas interrogações.
Chamai-nos a respeitar a vida,
A trocar, partilhar e dialogar.
Ensinai-nos as possibilidades de pôr em comum
Não nos dêem só o vosso saber.
Nunca esqueceis a nossa fome de ser
Aceitai as nossas contradições e hesitações.
Deixai-nos crescer
Aprendei o que há de melhor em nós
Ensinai-nos a olhar, a explorar, a tocar o indizível
Não nos dêem só o vosso saber
Despertai em nós o gosto do envolvimento activo
Aceitai a nossa criativadade para construir o futuro
Peçam-nos para enriquecer a vida
Aprendei a reencontrar o mundo
Ensinai-nos a compreender o mundo para lá das aparências
Não nos tragam somente a coerência e pedaços de verdades
Mas despertai em nós gozo da procura de sentidos
Aceitai as nossas errâncias e inabilidades
Chamai-nos para entrar numa vida mais ardente

Há uma vital urgência em tudo isso


Jacques Salomé








Eu não sei que mania se meteu na nossa cabeça moderna de que todas as dificuldades da sociedade se podem obviar mediante a promulgação de um regulamento executado mais ou menos pela coação autoritária de representantes do governo.

Querem fazer das nossas vidas, dos indivíduos, das almas, uma gaveta de fichas. Cada um tem que ter a sua e, para obtê-la, pagar emolumentos, vencer a ronha burocrática, lidar com funcionários arrogantes e invisíveis, como em geral são os da polícia.

Eis aí as belezas da regulamentação, desse exagero de legislar, que é o característico da nossa época. Toda a gente sabe a que doloroso resultado tem chegado semelhante mania.

Não estejamos aqui a sobrecarregar a vida dos desgraçados com exigências e regulamentos que os condenarão toda a sua vida à sua lamentável desgraça.


Lima Barreto, 1915




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DOWNLOAD: THE DISPOSABLE HEROES OF HIPHOPRISY -
HIPOCRISY IS THE GREATEST LUXURY - 1992




Todos os dias acontecem no mundo coisas que não são explicáveis pelas leis que conhecemos das coisas. Todos os dias, faladas nos momentos, esquecem, e o mesmo mistério que as trouxe as leva, convertendo-se o segredo em esquecimento. Tal é a lei do que tem que ser esquecido porque não pode ser explicado. À luz do sol continua regular o mundo visível. O alheio espreita-nos da sombra.







DOWNLOAD: BAD BRAINS - I & I SURVIVED (DUB) - 2002 - 192 Kbps
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A FLOR E A NÁUSEA


Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


Carlos Drummond de Andrade




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REPÚBLICA DE FIUME - 2 ANOS

ESPORTE MATA



A aptidão atlética encurta a vida porque ela se liga ao excesso e todo excesso é causa de envelhecimento.

Essa afirmação é outra maneira de dizer que esporte mata. No tempo em que o método de Cooper estava no auge, todo mundo corria todos os dias no calçadão de Copacabana e nas praças de quase todas as cidades. De vez em quando, um caía estatelado e era levado para o cemitério.

Esse tipo de morte se dá do seguinte modo: como o indivíduo não é longevo, isto é, como em seu organismo predomina o hormônio da supra-renal denominado glicocorticóide, cuja atividade é impedir a ação da insulina, que procura “limpar” o sangue, enviando para os tecidos o excesso de muitas substâncias, como a glicose, o ácido úrico, o colesterol, o LDL (colesterol “ruim”) etc. Nessas condições, todas essas substâncias tendem a aumentar no sangue. O aumento de LDL determina o aparecimento de placas de ateroma nas artérias e o espessamento delas, diminuindo o calibre desses vasos e, conseqüentemente, a nutrição do próprio coração, que finalmente se obstrui e constitui o infarto. Havendo na maioria das pessoas a predominância do glicocorticóide, é natural a freqüência do aparecimento do infarto. A prática de exercícios aeróbicos, como a corrida, a natação etc., irá antecipar muito esse desfecho, daí a razão de ser permitido dizer que esporte mata. A antecipação da morte está ligada ao esporte estressante. Ora, se ele é dessa natureza, aumenta a produção dos dois hormônios do estresse: a adrenalina e o glicocorticóide. Portanto, se há aumento de produção de glicocorticóide, é de se esperar que aumente também o LDL no sangue e, conseqüentemente, haja maior espessamento das placas de ateroma. Há muitos anos pedi a alguns jovens do Minas Tênis Clube que dessem alguns “tiros” na piscina para eu medir a pressão arterial deles antes e depois desse pequeno exercício. Notei que a pressão de alguns estava em 9/12, isto é, era uma pressão convergente, indicando que a capacidade do coração deles era aquém do normal. Esses jovens, praticando esporte, estariam sujeitos a ter o que se chama de colapso, isto é, predispostos a ter uma parada cardíaca e morrer repentinamente. Aqui não entra aumento de LDL no sangue, formação de placa de ateroma e infarto. O mecanismo é diferente, mas esporte mata.

Esporte só não mata longevo, mas a maioria das pessoas está sujeita a ser faturada por ele, principalmente nessa época de muita agitação em que vivemos. Atualmente há mais estresse do que há cinqüenta anos, isto é, a produção de glicocorticóide está muito aumentada na maioria das pessoas.

Muito cuidado, esporte mata! Indivíduo muito musculoso geralmente tem mais força física. Mas não vá pensar que ele é também mais sadio e possa viver mais do que você. Isso não acontecerá nunca. Pelo contrário, ele tem menos saúde e viverá menos do que o indivíduo normal. A razão disso está na sobrecarga do coração do atleta para alimentar também todo o excesso de tecido que foi criado. Ele foi feito para ter músculos de dimensões normais. A natureza jamais os faria hipertrofiado. Não faria porque, se os fizesse assim, estaria contrariando a si mesma, isto é, a perpetuação da espécie, pelo que ela sempre lutou.

José Róiz

DOWNLOAD: MONEY MARK - CHANGE IS COMING - 2001 - 192 Kbps
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DOWNLOAD: DEL THA FUNKEE HOMOSAPIEN -
I WISH MY BROTHER GEORGE WAS HERE - 1991 - 192 Kbps
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OWNED

No dia 06 de setembro de 2008 um grupo de cerca de 30 pixadores invadiu a galeria Choque Cultural, localizada no bairro de Pinheiros, na cidade de São Paulo. A Choque Cultural é uma galeria descolada que transforma arte de rua em mercadoria. Num manifesto os pixadores dizem que "se a ideologia da galeria é abrigar artistas underground, então é tudo nosso". A pixação une toda a cidade de São Paulo, não há uma só rua sem a marca de um pixador.

Todo o nosso respeito aos pixadores.













SOBRE A TELEVISÃO






Penso, com efeito, que a televisão faz correr um perigo muito grande às diferentes esferas da produção cultural, da arte, da literatura, da ciência, da filosofia, do direito, e faz correr um não menor risco à vida política e à democracia.

O acesso à televisão tem por contrapartida uma censura formidável, uma perda de autonomia ligada, entre outras coisas, ao fato de o tema ser imposto, de as condições de comunicação serem impostas. Pode dizer-se que é a coação econômica que pesa sobre a televisão. É importante sabermos que a NBC é propriedade da General Electric, que a CBS é propriedade da Westinghouse, que a ABC é propriedade da Disney, que a TF1 é propriedade da Bouygues…

A televisão é um formidável instrumento de conservação da ordem simbólica. Quanto melhor compreendemos como funciona melhor compreendemos também que as pessoas que nele participam são tão manipuladas como manipuladoras. Muitas vezes, os que manipulam fazem-no tanto melhor quanto mais manipulados são e quanto mais inconscientes estão desse fato…

A televisão tem uma espécie de monopólio sobre a formação dos cérebros de uma parte muito importante da população.

E a televisão, que pretende ser um instrumento de registo, torna-se instrumento de criação de realidade. Encaminhamo-nos cada vez mais para universos em que o mundo social é descrito/prescrito pela televisão, em que esta se transforma no árbitro do acesso à existência social e política.


Pierre Bourdieu




DOWNLOAD: FALLIN' OFF THE REEL VOL 2 - 2008 - VBR








DOWNLOAD: CLOUDDEAD - 2001
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PM-SP






Libertários freqüentemente têm sonhado em escapar da tirania do estado; alguns quiseram fazê-lo buscando refúgio em terras distantes e desabitadas onde pudessem viver em isolamento ou em pequenas comunidades mantidas juntas pelo princípio da associação voluntária e do auxílio mútuo. No entanto os historiadores sabem que esses experimentos raramente sobrevivem em paz por muito tempo; cedo ou tarde o estado os encontra com sua violência instintiva e sua mania de coerção.

Como os povos explorados ao redor do mundo estão começando a perceber, o verdadeiro inimigo está entre eles mesmos — a violência coercitiva do estado — e precisa ser combatido constantemente no núcleo de seus domínios. Todos precisam lutar contra o estado: em casa, nos negócios, nas escolas, nas comunidades e no mundo. Nossa tarefa é resistir ao estado e desmantelá-lo por quaisquer meios que tenhamos em mãos.

Historicamente os estados não se desmantelam por vontade própria ou facilmente. Embora eles possam se desintegrar em impressionante velocidade, como na Rússia em 1917 ou na França em 1968, quase sempre novos estados surgem para tomar seus lugares. O motivo disso é que os homens não conseguem acreditar na viabilidade de uma sociedade com liberdade plena e qualidade de vida sem a violência coercitiva do estado. Os homens estiveram por tanto tempo escravizados pelo estado que não conseguem se livrar dessa mentalidade podre.


Joseph R. Pedens





DOWNLOAD: LONNIE SMITH - TURNING POINT - 1969 - 320 Kbps
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A saúde do planeta definha enquanto a linguagem oficial oculta as responsabilidades ao proclamar: "Somos todos responsáveis".

Toda a humanidade paga pelas conseqüências da ruína da terra, da intoxicação do ar, do envenenamento das águas, do enlouquecimento do clima e da destruição dos recursos naturais. Entretanto, as estatísticas revelam que apenas 25% da humanidade comete 75% dos crimes contra a natureza. E se compararmos o norte ao sul, cada habitante do norte consume 14 vezes mais papel e 13 vezes mais ferro e aço. Cada norte-americano lança para o ar, em média, 22 vezes mais poluentes que um indiano e 13 vezes mais que um brasileiro.

As empresas com mais sucesso são também as mais eficazes contra o nosso planeta. Os gigantes do petróleo, os aprendizes de feiticeiro da energia nuclear, a biotecnologia e as grandes empresas que fabricam armas, aço, alumínio, automóveis, pesticidas, plásticos e muitos outros produtos sabem bem derramar lágrimas de crocodilo pela natureza. No entanto, estas empresas são as que mais dinheiro ganham com a ruína do planeta. São também as que mais dinheiro gastam: na publicidade, que converte a contaminação em filantropia, e nas ajudas aos políticos que decidem sobre o futuro do mundo.

O economista Lawrence Summers, doutorado em Harvard e elevado às mais altas hierarquias do Banco Mundial, propunha, num documento para uso interno da instituição (que por descuido foi tornado público) a migração das indústrias sujas e dos desperdícios tóxicos para os países menos desenvolvidos. Elencavam-se 3 vantagens como justificativa: os salários raquíticos, os grandes espaços (ou seja, ainda muito por contaminar) e a precariedade da saúde das populações pobres, que têm o hábito de morrer precocemente por outras causas. A divulgação deste documento provocou algum alarido: estas coisas fazem-se, mas não se dizem. Mas Summers, afinal, tinha apenas cometido a imprudência de expressar no papel aquilo que o mundo já há muito tempo vinha fazendo: transformar o sul numa lixeira do norte.

O que está mal no norte, está bem no sul; o que no norte está proibido, é bem-vindo no sul.
Pelo sul estende-se o reino da impunidade.


Eduardo Galeano



DOWNLOAD: THE HAGGIS HORNS - HOT DAMN! - 2007
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Fui para os bosques porque desejava deliberadamente viver, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida, e ver se poderia aprender o que ela tinha para ensinar, em vez de, quando estivesse para morrer, descobrir que não tinha vivido. Não desejava viver o que não era vida, viver é algo de precioso; não desejava igualmente praticar a renúncia, a não ser que fosse absolutamente necessário. Queria viver e com profundidade sugar toda a medula da vida, viver com tanto vigor e de modo tão espartano que conseguisse desbaratar tudo o que não fosse a vida, cortar uma larga trilha de trigo e ceifá-lo raso, empurrar a vida contra uma esquina; reduzi-la aos seus termos mais humildes, e, se eles provassem ser escassos, apreender a inteira e genuína mesquinhez dela, e apregoar a sua mesquinhez ao mundo; ou se ela fosse sublime, sabê-lo por experiência, e ser capaz de apresentar um relato verdadeiro dela na minha próxima excursão. É que a maioria dos homens, parece-me, encontram-se numa estranha incerteza acerca dela, se ela pertence ao diabo ou a deus, e concluíram um pouco apressadamente que a principal finalidade do homem neste mundo é "glorificar deus e gozá-lo para sempre".

Henry David Thoreau




DOWNLOAD: MILES DAVIS - DOO-BOP - 1991 - 320 Kbps
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Manter a mente vazia é uma proeza, e uma proeza muito saudável. Estar silencioso o dia inteiro, não ver nenhum jornal, não ouvir rádio, não escutar tagarelices, estar perfeita e completamente ocioso, perfeita e completamente indiferente ao destino do mundo é o mais excelente remédio que um homem pode administrar a si mesmo. Os jornais engendram mentiras, ódio, ganância, inveja, desconfiança, medo, maldade. Nós não precisamos da verdade como ela nos é servida nos jornais diários. Precisamos de paz, solidão e ociosidade.


Henry Miller








DOWNLOAD: MEIRELES E SUA ORQUESTRA - BRASILIAN EXPLOSION - 1974 - 192 Kbps





Podem ter a certeza, a depressão nervosa é a doença do século, a vida está cada vez mais impossível de se viver. Há cada vez mais médicos para tratar os nossos “nervos” doentes, cada vez mais psiquiatras nos infernizando. Nós recusamos este estribilho, recusamo-nos a aceitar o medicamento, camisa de forças do mundo moderno. O que queremos é menos doenças. Se o mundo faz enlouquecer, mudaremos o mundo; se a vida é impossível de se viver, mudaremos a vida. Asmáticos, eczematosos, gastríticos, lombálgicos, loucos ou candidatos à loucura, não compremos mais remédios e boas palavras, compremos espingardas! Homens do dinheiro, homens da TV, homens de togas, homens de negro, homens de branco, tomem cuidado! Não queremos mais conselheiros e patrões para a nossa vida! Estamos fartos de ser comidos!

Jean Carpentier




DOWNLOAD: THE BEST OF SUGAR HILL GANG - RAPPER'S DELIGHT
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DOWNLOAD: ANTIBALAS - WHO IS THIS AMERICA? - 2004 - 192 Kbps




Os seres humanos não são objetos; não possuem solidez. São seres redondos e luminosos; não possuem limites. O mundo dos objetos e a solidez não passam de uma descrição criada para os ajudar, para tornar conveniente a sua passagem pela Terra.


A razão leva-os a esquecer que a descrição não passa de uma descrição e, quando chegam a essa conclusão, os seres humanos encontram-se totalmente enredados num círculo vicioso, do qual raramente conseguem sair no decurso da vida.

Os seres humanos têm capacidade de percepção, mas o mundo que percebem é uma ilusão criada pela descrição que lhes fazem desde o dia em que nascem. Assim, o mundo que a sua razão pretende sustentar é o mundo criado por uma descrição e pelas suas regras dogmáticas e invioláveis, que a sua razão aprende a aceitar e a defender.


Carlos Castañeda





DOWNLOAD: JOHNNY PATE - BROTHER ON THE RUN OST - 1973






PROCISSÃO TRÁGICA

Procissão triste, negra, macábrica.
Eles desfilam. Ai!, vêm da fábrica,

onde os seus braços fecundadores
geram riquezas... para os senhores.

Na minha rua, vejo-os passar
– jaqueta ao ombro e a dor no olhar.

Trágicos, sujos, em negro bando,
passam, abstratos, rotos, sonhando.

Vêm das fadigas duras, malditas,
que dão tesouros... aos parasitas.

Passam crianças magras, cloróticas.
Vêm de oficinas atrás, despóticas.

Mulheres tristes e desgrenhadas
às casas voltam, apressuradas.

Elas, que andaram a enriquecer
gente que nunca viram, sequer,

voltam aos lares, onde os filhinhos
choram, famintos e sem carinhos.

O vulgo passa, passa a gentalha,
que nos sustenta, sua, trabalha.

Vêm do campo, ai!, vêm da fábrica.
Procissão triste, negra, macábrica.


Roberto das Neves





DOWNLOAD: SUGARMAN 3 & CO. - PURE CANE SUGAR - 2002 - 256 Kbps
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Condenaria-se um açougueiro que vendesse carne podre, mas a legislação permite impor habitações podres às populações pobres. Para o enriquecimento de alguns egoístas, tolera-se que uma mortalidade assustadora e todo tipo de doenças façam pesar sobre a coletividade uma carga esmagadora.

O crescimento da cidade devora progressivamente as superfícies verdes limítrofes. Esse afastamento cada vez maior dos elementos naturais aumenta proporcionalmente a desordem higiênica. Quanto mais a cidade cresce, menos as "condições naturais" são nela respeitadas. Por "condições naturais" entende-se a presença, em proporção suficiente, de certos elementos indispensáveis aos seres vivos: sol, espaço, vegetação. Uma expansão sem controle privou as cidades desses alimentos fundamentais, de ordem tanto psicológica quanto fisiológica. O indivíduo que perde contato com a natureza é diminuído e paga caro, com a doença e a decadência, uma ruptura que enfraquece seu corpo e arruina sua sensibilidade, corrompida pelas alegrias ilusórias da cidade. Nessa ordem de idéias, a medida foi ultrapassada no decorrer dos últimos cem anos, e essa não é a causa menor da penúria pela qual o mundo se encontra presentemente oprimido.

As construções destinadas à habitação são distribuídas pela superfície da cidade em conflito com os requisitos da higiene. O primeiro dever do urbanismo é pôr-se de acordo com as necessidades fundamentais dos homens. A saúde de cada um depende, em grande parte, de sua submissão às "condições naturais". O sol, que comanda todo o crescimento, deveria penetrar no interior de cada moradia, para espalhar seus raios, sem os quais a vida definha. O ar, cuja qualidade é assegurada pela presença da vegetação, deveria ser puro, livre das poeiras em suspensão e dos gases nocivos. O espaço, enfim, deveria ser distribuído com liberalidade. Não nos esqueçamos de que a sensação de espaço é de ordem psicofisiológica e que ruas estreitas e o estrangulamento das áreas comuns criam uma atmosfera tão insalubre para o corpo quanto deprimente para o espírito.


Le Corbusier, 1933





DOWNLOAD: HEAVY FLUTE - FUNKY FLUTE GROOVES FROM THE 60's & 70's - 192 Kbps
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GO JOHNNY!








DOWNLOAD: OL' DIRTY BASTARD - RETURN TO THE 36 CHAMBERS - 1995 - VBR





Porque o sentimento religioso é servil, ajoelhar perante deus é o mesmo que prosternar-se diante de um rei

Joseph Joubert



A crueldade é o primeiro atributo de deus

André Gide




Deus é o nome que desde o início dos tempos até aos nossos dias serviu para os homens designarem a sua ignorância

Max Nordeau




O ateu segue apenas as ordens da sua própria consciência

Sylvain Maréchal




Deus mata tudo o que lhe resiste. Em primeiro lugar, a razão, a inteligência, o espírito crítico

Michel Onfray



Jesus anunciou a chegada do reino de deus, e o que afinal apareceu foi a Igreja

Alfred Loisy





DOWNLOAD: CLUTCHY HOPKINS - WALKING BACKWARDS - 2008 - VBR
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Mais uma vez saqueando o Nirso sem piedade.






ATLETAS - esses "atletas brasileiros" realmente representam a ideologia verde-amarelista: estão sempre enrolados com a "bandeira nacional", chorando com o nosso-hino e "representando o brasil". e, normalmente, perdem o nome: "o brasil jogou hoje": "o brasil compete contra ...": é a nação que funciona: é um dos fascismos mais estranhos do mundo: não tem vergonha de alardear seus emblemas, suas imagens-chavões, seus sentimentos ridículos, suas cores capachos, suas pobrezas, incompetências, mulambos e desnutrições como se fossem o paraíso, a beleza, a verdade, o único. ou melhor, todas as ditaduras não esquecem de expor seus "símbolos nacionais" até a náusea.








OLIMPIADAS - não param de falar nas olimpíadas: não aceito que não sintam a patetice de tudo isso: por mais de um ano, todos os dias, todas as mídias, falando nesta coisa sem propósito (para vender, com certeza, os produtos do mundo!) e agora os “heróis da pátria”, merdas flutuantes (favelados, suburbanos e pobres de todos os terreiros) da republiqueta (pela pobreza, pela ideologia, pelo medo e pela honra) depois de fazerem todas as cacas possíveis, dão desculpas esfarrapadas (lumpen) que poderia ser a base de alguma piedade, se piedade alguma coisa desse território merecesse piedade: e ainda por cima não são culpados de nada: os que são levam, por um lado, grande parte dos louros e das louras, enquanto os pobres infelizes voltam e se atiram, na miséria que lhes cabe um cauntri deste: ficam velhos, pobres, desdentados, arruinados e ainda são levados em programas de auditório para “servir de exemplo para a juventude” (não sei se notam o horror de tudo isso ou fazem esses festivais de perversidade por inocência pura e elevada).


Alberto Lins Caldas





DOWNLOAD: FLAVOR FLAV - HOLLYWOOD - 2006 - 192 Kbps
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Obedecer é morrer. Cada instante em que o homem se submete a uma vontade estranha é um instante que na sua própria vida ele elimina.

Quando um indivíduo se vê constrangido a efetuar um ato contrário ao seu desejo ou impedido de agir de acordo com a sua necessidade, deixa assim de viver a sua vida pessoal; ao mesmo tempo que o homem que dá ordens aumenta a sua dominação da vida, sugada à energia dos que se lhe submetem, aquele que obedece aniquila-se, vê-se absorvido por uma personalidade que lhe é estranha, passando a ser apenas força mecânica, ferramenta ao serviço de um dono.

Quando se trata da autoridade exercida por um homem sobre outros homens, por um soberano despótico sobre os súditos, por um patrão sobre os empregados, por um senhor sobre os criados, imediatamente se percebe que esta personalidade emprega a vida dos que lhe estão submetidos para dar satisfação aos seus prazeres, às suas necessidades ou aos seus interesses; ou seja, para melhorar e ampliar a sua vida pessoal em prejuízo da deles.

Aquilo que em geral não se percebe tão facilmente é a nefasta influência, em tudo isto, das autoridades de ordem abstrata: as idéias, os mitos religiosos ou de outro género, os costumes, etc. E no entanto todas as manifestações exteriores de autoridade têm origem numa autoridade mental. Nenhuma autoridade material, seja ela a das leis ou a dos indivíduos, contém atualmente força e razão
em si. Nenhuma se exerce realmente por si mesma, todas se baseiam em idéias.


Alexandra David-Néel




DOWNLOAD: MAZE FEATURING FRANKIE BEVERLY - 1977 - 320 Kbps







Se executamos ações sem conhecer as suas causas, condições ou efeitos, passamos a ser causa, condição e efeito das ações de outros. E quanto mais ignoremos que os donos das nossas ações são outros, tanto mais nossos donos esses outros serão.

Falar é uma das ações mais freqüentes. E a maioria das afirmações que se faz ao falar é falsa. Por exemplo, muitos trabalhadores e empregados dizem: "o dinheiro gera riqueza", ainda que não seja o dinheiro que gere a riqueza, mas sim eles próprios. Ao dizerem-no, estão repetindo o que ouviram. "Ponha o seu dinheiro para render conosco", proclamam os bancos insistentemente. Onde foram aqueles que verdadeiramente trabalham buscar esta idéia que põe o mundo às avessas, apresentando as coisas ao contrário do que são?

O efeito de apresentar assim a questão da produção faz com que os trabalhadores atribuam, na lógica da produção, mais importância ao capital do que a si mesmos, ainda que sejam eles quem produz o capital. O efeito é esta condição de modéstia e humildade induzidas, atributos dos escravos, da mentalidade submissa.

Os habitantes das grandes cidades mostram aos seus visitantes os maravilhosos arranha-céus e os mais recentes edifícios "inteligentes" dos bancos e consórcios empresariais. Apontam para eles com orgulho e falam deles como se fossem seus. Mas a realidade é que são propriedade privada de uns poucos negociantes multimilhonários que com os seus edifícios prodigiosos expulsam esses mesmos habitantes para as periferias.

Os trabalhadores e os assalariados e empregados têm de ir para os subúrbios porque o Estado protege os especuladores imobiliários. Hoje em dia, os trabalhadores deixam mais de um décimo da sua vida no transporte para o local de trabalho. Os expulsos estão orgulhosos da propriedade de quem os expulsa. Não aprenderam a estabelecer as relações entre as diferentes informações, a contextualizá-las. Consideram, aliás, imutável e inelutável a sua situação.

Para que a população aceite esta situação é necessário, está claro, um esforço enorme para mantê-la desinformada, para convencê-la que não existe alternativa, para a manter material e espiritualmente submissa. Os líderes espirituais, os formadores de opinião, desde a
intelligentsia vendida até o papa, sabem que é mais fácil enganar uma população pouco e mal informada, do que uma outra, ilustrada.



Vicente Romano, em A Formação da Mentalidade Submissa




DOWNLOAD: MEDESKI, MARTIN & WOOD - LET'S GO EVERYWHERE - 2008 - VBR
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Toda escrita é porcaria. Toda gente literária é porca. Especialmente essa do nosso tempo.

Todos aqueles que têm pontos de referência no espírito, quero dizer, de um certo lado da cabeça, sobre lugares bem demarcados de seus cérebros, todos aqueles que são mestres da sua língua, todos aqueles para os quais as palavras têm um sentido, todos aqueles para quem existem altitudes na alma e correntes no pensamento, aqueles que são o espírito de sua época, e que nomearam essas correntes de pensamento; penso em suas necessidades precisas, e nesse ranger de autômato que espalha a todos os ventos o seu espírito,

- são porcos.

Aqueles para os quais certas palavras têm um sentido, e certas maneiras de ser, aqueles para quem os sentimentos têm classes e que discutem sobre um grau qualquer de suas hilariantes classificações, aqueles que ainda acreditam em “termos”, aqueles que remexem as ideologias em alta na época, aqueles de quem as mulheres falam tão bem e essas mulheres também, que falam tão bem, e que falam das correntes da época, aqueles que ainda crêem numa orientação de espírito, aqueles que seguem vozes, que agitam nomes, que fazem gritar as páginas dos livros,

- esses são os piores porcos.


Antonin Artaud




DOWNLOAD: CYPRESS HILL -
LOS GRANDES ÉXITOS EN ESPAÑOL - 1999 - 224 Kbps

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Quando viajei para longe, vi a terra dos brancos, lá onde havia muito tempo viviam os seus ancestrais. Visitei a terra que eles chamam Eropa. Era a sua floresta, mas eles despiram-na pouco a pouco cortando as árvores para construir as suas casas. Eles fizeram muitos filhos, não pararam de aumentar, e não havia mais floresta. Então, eles pararam de caçar, pois não havia mais caça também. Depois, os seus filhos puseram-se a fabricar mercadorias e o seu espírito começou a obscurecer-se por causa de todos esses bens sobre os quais fixaram o seu pensamento.
Eles construíram casas de pedra, para que não se deteriorassem. Continuaram a destruir a floresta, dizendo: "Nós vamos nos tornar o povo das mercadorias! Vamos fabricar muitas mercadorias e dinheiro também! Assim, quando formos realmente numerosos, jamais seremos miseráveis". Foi com esse pensamento que eles acabaram com a sua floresta e sujaram os seus rios. Agora, só bebem água "embrulhada", que precisam comprar. A água de verdade, a que corre nos rios, já não é boa para beber.

Nos primeiros tempos, os brancos viviam como nós na floresta e os seus ancestrais eram pouco numerosos. Omama transmitiu também a eles as suas palavras, mas não o escutaram. Pensaram que eram mentiras e puseram-se a procurar minerais e petróleo por toda parte, todas essas coisas perigosas que Omama quis ocultar sob a terra e a água porque o seu calor é perigoso. Mas os brancos encontraram-nas e pensaram fazer com elas ferramentas, máquinas, carros e aviões. Eles ficaram eufóricos e disseram: "Nós somos os únicos a ser tão engenhosos, só nós sabemos realmente fabricar as mercadorias e as máquinas!". Foi nesse momento que eles perderam realmente toda a sabedoria. Primeiro estragaram a sua própria terra antes de ir trabalhar na dos outros para aumentar as suas mercadorias sem parar. Nunca mais eles disseram: "Se destruirmos a terra, será que seremos capazes de recriar uma outra?"

Quando conheci a terra dos brancos isso me deixou inquieto. Algumas cidades são belas, mas o seu barulho não pára nunca. Eles correm por elas com carros, nas ruas e mesmo com comboios por debaixo da terra. Há muito barulho e gente por toda parte. O espírito torna-se obscuro e emaranhado, não se pode mais pensar direito. É por isso que o pensamento dos brancos está cheio de vertigens e eles não compreendem as nossas palavras. Eles não fazem mais que dizer: "Estamos muito contentes de rodar e de voar! Continuemos! Procuremos petróleo, ouro, ferro! Os yanomami são mentirosos!". O pensamento desses brancos está obstruído, é por isso que eles maltratam a terra, desbravando-a por toda parte, e a cavam até debaixo das suas casas. Eles não pensam que ela vai desmoronar. Eles não temem cair no mundo subterrâneo. Porém, é assim. Se os "brancos-espíritos-tatus-gigantes", as mineradoras, entram por toda parte sob a terra para retirar minérios, eles vão se perder e cair no mundo escuro e podre dos ancestrais canibais.

Nós, nós queremos que a floresta permaneça como é, sempre. Queremos viver nela com boa saúde e que continuem a viver nela os espíritos xapiripê, a caça e os peixes. Cultivamos apenas as plantas que nos alimentam, não queremos fábricas, nem buracos na terra, nem rios sujos. Queremos que a floresta permaneça silenciosa, que o céu continue claro, que a escuridão da noite caia realmente e que se possam ver as estrelas. As terras dos brancos estão contaminadas, estão cobertas da xawara wakixi, uma "epidemia-fumaça", que se estendeu muito alto no peito do céu. Essa fumaça dirige-se para nós mas ainda não chega lá, pois o espírito Hutukarari repele-a ainda sem descanso. Acima da nossa floresta o céu ainda é claro, pois não faz tanto tempo que os brancos se aproximaram de nós. Mas bem mais tarde, quando eu estiver morto, talvez essa fumaça aumente a ponto de estender a escuridão sobre a terra e de apagar o sol. Os brancos nunca pensam nessas coisas que os xamãs conhecem, é por isso que eles não têm medo. O seu pensamento está cheio de esquecimento. Eles continuam a fixá-lo sem descanso nas suas mercadorias, como se estas fossem as suas namoradas.



Davi Kopenawa Yanomami




DOWNLOAD: KUTIMAN - 2007 - VBR
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A ciência do devir - a caravana - desempoderamento pela ausência - a negação das fronteiras políticas e lingüísticas da velha ordem: Nações são prisões. A experiência do andarilho. O deslocamento e a obtenção de recursos. O nomadismo é uma forma de se relacionar com o ambiente do entorno, tanto físico quanto cultural, quanto psicicológico, por que os três são um só e a possibilidade de interações com este ambiente é virtualmente ilimitada. O nomadismo pede isso, testar as interações com o ambiente. Todos os dias você vai de casa para o trabalho e do trabalho para casa no mesmo horário? Você almoça no mesmo restaurante e conversa com as mesmas pessoas sobre a mesma série idiota da televisão paga? Por quê você não se perde? Não chega no trabalho mais cedo e prepara o café ou lê a agenda do chefe? Expanda seus horizontes para além da rotina massacrante. Continue na rotina massacrante, qualquer que seja, se isso for por algo mais que dinheiro, férias, drogas ou outras compensações fúteis. Tenha mais de uma casa, viva entre elas. Pensando rotas alternativas, mantimentos e eventuais contratempos. Ainda saiba se orientar pelas manifestações da natureza, mas também saiba se orientar na web. Você sabe fazer fogueira? Já sofreu um transe e se transformou em outro ser, com outras potências? Pense diferente e implemente essa diferença. Somos governados por leis naturais e leis sociais, mas usamos da natureza e, enquanto sociedade, criamos e gerimos essas leis que nos governam. Governam? Ainda governam? Só porque não investimos, vários, em algo diferente. O nomadismo é isso. O nomadismo é psíquico, é interno...mas é também essa ação modificando o externo, na rede, no coletivo em que estou. É investir em destruir, é investir em construir a partir de outros nós, feitos com praticamente a mesma corda social. Pois não podemos prescindir da troca, mas podemos mudar, ou até eliminar o dinheiro. Podemos pensar em outras alianças entre os homens e o cosmos. Podemos insistir na pedagogia cotidiana para uma nova ética e uma nova espiritualidade. Podemos gerenciar uma outra territorialidade, sem nenhuma propriedade. E assim por diante.


Hakim Bey



DOWNLOAD: JANKO NILOVIC - RYTHMES CONTEMPORAINS -1973 - 256 Kbps
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CHINESE HIPOCRISY













DOWNLOAD: CURTIS MAYFIELD - SWEET EXORCIST - 1974 - 192 Kbps


O grande desafio do nosso tempo é criar comunidades sustentáveis – comunidades assim designadas por os seus estilos de vida, as tecnologias que utilizam e as suas instituições sociais respeitarem, apoiarem e cooperarem com as limitadas possibilidades naturais existentes de uma forma de vida sustentável. E não é preciso inventá-las a partir de um qualquer guião, basta descobrir nos ecossistemas naturais essas tais comunidades sustentáveis de plantas, animais e micro-organismos. O primeiro passo neste caminho é tornarmo-nos ecologicamente literatos, ou seja, compreendermos todos, quais os princípios de organização envolvidos nos ecossistemas e capazes de sustentar a rede da vida. Nas próximas décadas, dúvidas não há, de que a sobrevivência da humanidade dependerá da nossa literacia ecológica – da nossa capacidade para entender os princípios básicos da ecologia e de viver de acordo com eles.

Fritjof Capra



DOWNLOAD: NIGHTMARES ON WAX - CARBOOT SOUL - 1999 - 192 Kbps
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███████████ R.I.P. ISAAC HAYES █████████




A subversão consiste em levar uma vida filosófica na qual as virtudes dominantes da nossa época mercantil (o dinheiro, o poder, a riqueza, a ostentação, as honras, a busca de celebridade, a futilidade, a mundanidade, a paixão pelas aparências…) sejam completamente ignoradas e substituídas sem alarde por valores reais: ser em contraste com o ter; o poder sobre si e não sobre os outros; a indiferença em relação ao dinheiro – quer o tenhamos ou não, nada se fará para o ter; a supremacia da vida interior contra o império do olhar do outro sobre si; a recusa das honras, de que se preferirá o sentido da honra; a indiferença relativamente à celebridade – tenha-se ou não, o importante é nada fazer para a ter; o desejo de se construir em profundidade longe da superficialidade mundana, ou seja, a escultura de si como ato para si e não como ficção para o outro.



Michel Onfray




DOWNLOAD: MOMBASA - AFRICAN RHYTHMS & BLUES - 1975 - 160 Kbps













O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas idéias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretárias para as mesas dos cafés. A ruína econômica cresce, cresce, cresce… O comércio definha. A indústria enfraquece. O salário diminui. O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. Neste salve-se quem puder a burguesia proprietária explora o aluguel. A agiotagem explora o juro. De resto a ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro. O número de escolas só por si é dramático. O professor tornou-se um empregado de eleições. A população dos campos, arruinada, vivendo em casebres ignóbeis, sustentando-se de sardinha e de ervas, trabalhando só para o imposto por meio de uma agricultura decadente, leva uma vida de misérias, entrecortada de penhoras. A intriga política alastra-se por sobre a sonolência enfastiada do país. Apenas a devoção perturba o silêncio da opinião, com padre-nossos maquinais. Não é uma existência, é uma expiação.


Eça de Queirós




DOWNLOAD: SHUGGIE OTIS - INSPIRATION INFORMATION - 1974
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Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, agüentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai.


Guerra Junqueiro, 1896.





DOWNLOAD: BLO - PHASE II - 1974 - 256 Kbps
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Quem deve enfrentar monstros deve permanecer atento para não se tornar também um monstro. Se olhares demasiado tempo dentro de um abismo, o abismo acabará por olhar dentro de ti.

Friedrich Nietzsche






DOWNLOAD: EDAN - BEAUTY AND THE BEAT - 2005
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DOWNLOAD: MIKE ROZAKIS - SHE KNEW NO OTHER WAY OST - 1973 - 320 Kbps





É a minha vez de propor uma equação: colonização-coisificação.
Já ouço a trovoada. Falam-me de trovoada, de "realizações", de doenças curadas, e de níveis de vida elevados acima de si próprios.
Eu falo de sociedade esvaziadas de si próprias, de culturas espezinhadas, de instituições minadas, de terras confiscadas, de religiões assassinadas, de magnificências artísticas enfraquecidas, de possibilidades extraordinárias suprimidas.
Atiram-me à cabeça com fatos, estatísticas, quilómetros de estradas, canais e ferrovias.
Eu falo de milhares de homens sacrificados no Congo.
Falo dos que, à mesma hora em que escrevo, escavam à mão o porto de Abidjan. Falo dos milhões de homens arrancados aos seus deuses, hábitos, vidas, à vida, à dança e à sabedoria.
Enchem-me os olhos com toneladas de algodão ou de cacau exportadas, com hectares de plantações de olivais ou de vinha.
Eu falo de economias naturais e de economias harmoniosas e viáveis que, apesar de serem desorganizadas, estavam à medida do homem indígena, e que foram destruídas juntamente com as suas culturas alimentares, falo de subalimentação crônica, de desenvolvimento agrícola orientado para benefício exclusivo das metrópoles, de saque de produtos e de matérias-primas.



Aimé Césaire





DOWNLOAD: MICKEY AND THE SOUL GENERATION - IRON LEG - 1970 - 192 Kbps
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Diariamente as empresas farmacêuticas e os grupos de interesses médicos inventam as doenças: a doença transformou-se num produto industrial. Para tal, as empresas e as associações convertem os processos normais da existência humana em problemas médicos, "medicalizam" a vida.

O desejo inato do homem em estar saudável é natural. No entanto, os inventores de doenças alimentam esse desejo, utilizam-no para os seus próprios fins e tiram proveito disso de forma calculada.

Para poder manter o enorme crescimento dos anos anteriores, a indústria da saúde cada vez tem de tratar mais pessoas que, na realidade, estão saudáveis. Os grupos farmacêuticos que operam globalmente e as associações de médicos ligadas internacionalmente definem de novo a nossa saúde: os altos e baixos naturais da vida e os comportamentos normais são reciclados de forma sistemática em estados patológicos. As empresas farmacêuticas patrocinam a invenção de quadros clínicos completos, e conseguem assim novos mercados para os seus produtos.

"É fácil inventar novas doenças e novos tratamentos", constata o British Medical Journal. "Muitos processos normais da vida – o nascimento, o envelhecimento, a sexualidade, a infelicidade e a morte – podem ser medicados." (in Moynihan, R e Smith, R. "Too much medicine?", British Medical Journal, 324, pp 859-860, 2002)



Jorg Blech, em "Os Inventores de doenças"





DOWNLOAD: THE GATURS - WASTED - 1970
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DOWNLOAD: OKU ONUORA -
I A TELL... DUBWISE & OTHERWISE - 1982 - 192 Kbps
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CLASSES



as "classes exploradas" criaram uma "cultura" impotente, ridícula, festeira, própria do "lixo industrial" de quem não resiste porque não sabe ao que resistir; as "classes exploradoras" criaram uma "cultura" capacho (aos modelos europeus e estadunidenses e, principalmente, às oligarquias internas), frouxa, gosmenta, palavrosa, incapaz de superar sua im-posição de classe, sua visceral cumplicidade.



Alberto Lins Caldas








DOWNLOAD: TOM JOBIM - PASSARIM - 1987 -320KBPS
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  • As 3 pessoas mais ricas do mundo são também mais ricas que os 48 países mais pobres do mundo.

  • Os bens das 84 pessoas mais ricas do mundo ultrapassam o produto interno bruto da China com seus um bilhão e trezentos mil habitantes

  • As 225 pessoas mais ricas do mundo possuem uma fortuna equivalente ao rendimento anual acumulado de 47% das pessoas (mais pobres) do planeta, ou seja, 3 bilhões de pessoas.

  • Bastaria cerca de 4% da riqueza acumulada dessas 225 pessoas mais ricas para dar a toda a população do mundo acesso à satisfação das suas necessidades de base (saúde, educação e alimentação)




DOWNLOAD: KAIN - THE BLUE GUERRILLA - 1971 - 160 Kbps





...fui agredido em todos os meus gostos: na aula, pelas minhas idéias; nos recreios, pelo meu pendor para a selvageria solitária. Desde então, sou um louco!
Vivi lá portanto sozinho e aborrecido, atormentado pelos meus mestres e escarnecido pelos meus colegas......

(…)

Nunca apreciei uma vida regrada, horas certas, uma existência de relógio em que é preciso que o pensamento pare com o sino, em que tudo já foi percorrido de antemão por séculos e gerações. Esta regularidade sem dúvida pode convir à maioria, mas para a pobre criança que se alimenta de poesia, de sonhos e de quimeras, que pensa no amor e em todas as tolices, é o despertar incessante deste sonho sublime, é não lhe deixar um momento de repouso, é asfixiá-la transportando-a para a nossa esfera do materialismo e do bom senso a que ela tem horror e nojo!

(…)

... tinha deturpado o gosto e o coração, como diziam os meus professores e, entre tantos seres de tendências tão ignóbeis, a minha independência de espírito levava a que fosse tomado pelo mais depravado de todos....

(…)

.....abandonemos o manto real, o cetro, os diamantes, o palácio em derrocada, a cidade em queda....

(…)

.....a natureza será livre sem o homem.


Gustave Flaubert, em "Diário de um Louco"




DOWNLOAD: DJ NUTS - EMBALO JOVEM - 2008 - 192 Kbps
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VOTO



O autogoverno está na razão inversa do quantitativo de seres humanos. Quanto mais elevado for o eleitorado, mais baixo é o valor de qualquer voto individual. Quando não passa um entre milhões, o indivíduo-eleitor sente-se uma quantidade irrelevante e sem forças. Os candidatos para os quais votou estão muito distante, no último degrau da pirâmide do poder. Teoricamente são os servidores do povo; contudo, são os servidores que dão as ordens e é o povo, situado na base da grande pirâmide, que deve acatar as ordens. O crescimento da população e os progressos da tecnologia resultaram em um aumento do número e da complexidade das organizações, em um aumento da quantidade de poder concentrado nas mãos dos dirigentes, e em uma diminuição correspondente da intensificação do controle exercido pelos eleitores, ao mesmo tempo que se dá um decréscimo do interesse do público pelos processos democráticos. Já enfraquecidas por imensas forças impessoais que agem no mundo moderno, as instituições democráticas estão agora sendo interiormente minadas pelos políticos e pelos seus propagandistas.


Aldous Huxley



DOWNLOAD: EYES AND TEETH - DEMONS - 2006 - 320 Kbps
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Nós, ciganos, temos uma só religião: a da liberdade
Em troca desta renunciamos à riqueza, ao poder, à ciência e à glória
Vivemos cada dia como se fosse o último
Quando se morre, deixa-se tudo: um miserável carroção como um grande império
E nós cremos que nesse momento é muito melhor ser cigano do que rei.
Nós não pensamos na morte. Não a tememos – eis tudo.
O nosso segredo está no gozar em cada dia as pequenas coisas que a vida nos oferece
e que os outros homens não sabem apreciar;
uma manhã de sol, um banho na torrente, o contemplar de alguém que se ama
É difícil compreender estas coisas, eu sei
Nasce-se cigano.
Agrada-nos caminhar sob as estrelas.
Contam-se estranhas histórias sobre ciganos
Diz-se que lemos nas estrelas e que possuímos o filtro do amor
As pessoas não acreditam nas coisas que não sabem explicar-se
Nós, pelo contrário, não procuramos explicar as coisas em que acreditamos.
A nossa vida é uma vida simples, primitiva: basta-nos ter por teto o céu, um fogo para nos aquecer e as nossas canções quando estamos tristes.


Vittorio Pasqualle Spatzo




DOWNLOAD: YOUNG-HOLT UNLIMITED - SOULFUL STRUT - 1968
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A essência da guerra é a destruição, não necessariamente de vidas humanas, mas do produto do trabalho humano. A guerra prefigura a forma ideal de despedaçar, de lançar na estratosfera ou de afundar nos abismos marítimos produtos que, de outro modo, poderiam servir para dar às massas um conforto excessivo, e por conseguinte, a longo prazo, torná-las extremamente lúcidas. Mesmo que o armamento não chegue a ser de fato destruído, a sua fabricação, ainda assim, ocupa, na prática, forças de trabalho sem nada produzir que possa ser bem utilizado.

Se todos tivessem igual acesso ao lazer e à segurança, a grande maioria dos seres humanos, que normalmente vivem embrutecidos pela pobreza, instruiriam-se e aprenderiam a pensar pela sua própria cabeça; a partir daí, cedo ou tarde concluiriam que a minoria privilegiada não desempenha qualquer função, e acabariam com ela.

George Orwell



DOWNLOAD: SAUL WILLIAMS - 2004 - VBR
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Chamam-te "Zé Ninguém!", "Homem Comum" e, ao que dizem, começou a tua era, a "Era do Homem Comum". Mas não és tu que o dizes, Zé Ninguém, são eles, os vice-presidentes das grandes nações, os importantes dirigentes do proletariado, os filhos da burguesia arrependidos, os homens de Estado e os filósofos. Dão-te o futuro, mas não te perguntam pelo passado.

Tu és herdeiro de um passado terrível. A tua herança queima-te as mãos, e sou eu que te digo. Há algumas décadas, tu, Zé Ninguém, começaste a penetrar no governo da Terra. O futuro da raça humana depende, a partir de agora, da maneira como pensas e ages. Porém, nem os teus mestres nem os teus senhores te dizem como realmente pensas e és, ninguém ousa dirigir-te a única crítica que te podia tornar apto a ser inabalável senhor dos teus destinos. És "livre" apenas num sentido: livre da educação que te permitiria conduzir a tua vida como quisesse.

Deixas que os homens no poder a assumam em teu nome. Mas tu mesmo nada dizes. Conferes aos homens que detêm o poder, quando não o conferes a renomados mal intencionados, mais poder ainda para te representarem. E só muito tarde reconheces que te enganaram uma vez mais.

Mas eu entendo. Vezes sem conta te vi nu, psíquica e fisicamente nu, sem máscara, sem opção, sem voto, sem aquilo que faz de ti "membro do povo". Nu como um recém-nascido ou um general em cuecas. Ouvi então os teus prantos e lamúrias, ouvi-te os apelos e esperanças, os teus amores e desditas. Conheço-te e entendo-te. E vou dizer-te quem és, Zé Ninguém, porque acredito na grandeza do teu futuro, que sem dúvida te pertencerá. Por isso mesmo, antes de tudo o mais, olha para ti. Vê-te como realmente és. Ouve o que nenhum dos teus chefes ou representantes se atreve a dizer-te: És o "homem médio", o "homem comum". Repara bem no significado destas palavras: "médio" e "comum".

Não fujas. Anima-te e contempla-te. "Que direito tem este tipo de dizer-me o que quer que seja?" Leio esta pergunta nos teus olhos-amedrontados. Ouço-a na sua impertinência, Zé Ninguém. Tens medo de olhar para ti próprio, tens medo da crítica, tal como tens medo do poder que te prometem e que não saberias usar. Nem te atreves a pensar que poderias ser diferente: livre em vez de deprimido, direto em vez de cauteloso, amando às claras e não mais como um ladrão na noite. Tu mesmo te desprezas, Zé Ninguém, dizendo: "Quem sou eu para ter opinião própria, para decidir da minha própria vida e ter o mundo por meu?" E tens razão: Quem és tu para reclamar direitos sobre a tua vida? Deixa-me dizer-te.

Diferes dos grandes homens que verdadeiramente o são apenas num ponto: todo grande homem foi outrora um Zé Ninguém que desenvolveu apenas uma outra qualidade: a de reconhecer as áreas em que havia limitações e estreiteza no seu modo de pensar e agir. Através de qualquer tarefa que o apaixonasse, aprendeu a sentir cada vez melhor aquilo em que a sua pequenez e mediocridade ameaçavam a sua felicidade. O grande homem é, pois, aquele que reconhece quando e em que é pequeno. O homem pequeno é aquele que não reconhece a sua pequenez e teme reconhecê-la; que procura mascarar a sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de força e grandeza, força e grandeza alheias. Que se orgulha dos seus grandes generais, mas não de si próprio. Que admira as idéias que não teve, mas nunca as que teve. Que acredita mais arraigadamente nas coisas que menos entende, e que não acredita no que quer que lhe pareça fácil de assimilar.


Wilhelm Reich



DOWNLOAD: INSIDE DEEP NOTE - MUSIC OF 1970's ADULT CINEMA
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